10 filmes e documentários para conhecer diferentes períodos da história do Brasil

Produções nacionais abordam colonização, escravização, Era Vargas e ditadura, mas especialistas recomendam comparar filmes com pesquisas históricas.

Cinema nacional reconstituiu momentos-chave da história do Brasil, da colonização à redemocratização.

Feriados ligados à história do Brasil podem servir como ponto de partida para conhecer, pelo cinema, períodos como a colonização, a escravização, a Era Vargas, a ditadura militar e as crises políticas recentes. Filmes e documentários nacionais reconstituem esses episódios sob diferentes pontos de vista, mas especialistas recomendam comparar mais de uma produção antes de considerar qualquer obra um retrato definitivo do passado.

Para historiadores, o audiovisual não substitui a pesquisa histórica. Ainda assim, pode aproximar o público de acontecimentos que muitas vezes parecem abstratos, especialmente quando são lembrados em feriados, nomes de ruas ou livros didáticos.

Do Brasil colonial à Era Vargas

Flávio Vilas Boas Trovão, professor do mestrado profissional de história da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e autor do livro “História das Américas através do cinema”, afirma que o cinema cria uma aproximação afetiva com personagens e episódios já conhecidos pelo público.

A ferramenta ajuda a “aproximar figuras e episódios com os quais os estudantes já têm contato por serem lembrados em feriados, nomes de rua ou livros didáticos”.

Essa aproximação exige atenção às escolhas de cada produção. A época em que o filme foi realizado e a interpretação do diretor influenciam a forma como determinado período é apresentado. Entre os títulos sobre os primeiros séculos do país estão “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1971), de Nelson Pereira dos Santos, sobre um francês capturado pelos tupinambás no Brasil do século XVI, e “Xica da Silva” (1976), de, que aborda relações sociais e disputas de poder no Brasil escravista do século XVIII.

“Guerra de Canudos” (1997) retoma o conflito entre o Exército republicano e os seguidores de Antônio Conselheiro no interior da Bahia. O episódio, ocorrido nos primeiros anos da República brasileira, permanece associado aos confrontos entre o Estado e as populações do sertão.

Já “Olga” (2004), de Jayme Monjardim, acompanha a militante comunista Olga Benário e sua relação com Luiz Carlos Prestes durante a repressão do governo de Getúlio Vargas.

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Ditadura militar e democracia recente

O período getulista também aparece em “Getúlio” (2014), centrado nos últimos dias de vida do presidente Getúlio Vargas e na crise política que antecedeu o suicídio do presidente, em 1954. Para abordar o golpe de 1964, o documentário “Jango” (1984), de Silvio Tendler, reconstitui o governo de João Goulart e os acontecimentos que levaram à sua deposição.

O filme levou mais de meio milhão de espectadores aos cinemas e é apontado como o sexto documentário de maior bilheteria da história do cinema brasileiro.

Outras produções se concentram nos anos de chumbo. “O Que É Isso, Companheiro?” (1997), de Bruno Barreto, narra o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick por um grupo de resistência, em 1969. “Batismo de Sangue” (2007), por sua vez, acompanha frades dominicanos envolvidos na luta armada contra o regime e retrata a prisão e a tortura sofridas pelos religiosos.

A experiência de mulheres presas e torturadas durante a ditadura é o foco de “Que Bom Te Ver Viva” (1989), dirigido por Lúcia Murat, ela própria presa política na época. O documentário combina depoimentos reais e encenações ficcionais e se tornou referência nas discussões sobre memória, violência política e a vivência feminina durante o regime militar.

Na história mais recente, “Democracia em Vertigem” (2019), de, acompanha o impeachment da ex – presidente Dilma Rousseff, a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva e a ascensão de Jair Bolsonaro, relacionando esses fatos à trajetória pessoal da diretora.

A produção estreou no Festival de Sundance, foi indicada ao Oscar de Melhor Documentário em 2020 e tem aprovação de 96% no site de críticas Rotten Tomatoes.

Henri Pierre Arraes de Alencar Gervaiseau, professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo (USP), considera o documentário “muito bem documentado, com registros efetuados de forma observacional”.

Ele observa, porém, que a diretora adota um ponto de vista pessoal, característica do documentário autoral que o diferencia do relato jornalístico tradicional.

Como escolher filmes para o feriado

Com muitas opções disponíveis em plataformas de streaming, Alcides Freire Ramos, doutor em história e professor da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), recomenda assistir a mais de uma obra sobre o mesmo período. A comparação entre filmes de décadas diferentes e realizados sob perspectivas distintas pode “facilitar a compreensão a respeito da historiografia” de cada episódio.

Para quem tem pouco tempo, a orientação é escolher um recorte específico, como colonização, Era Vargas, ditadura ou democracia recente. Dessa forma, a sessão não precisa tentar abranger toda a história do país e pode servir como ponto de partida para pesquisas complementares sobre os acontecimentos retratados.