Vaticano cobra fim de investimentos em mineração! Igreja global lança iniciativa ousada e exige mudança ética de instituições religiosas. Saiba mais!
Em um movimento que reflete os princípios da ecologia integral defendidos pela Igreja Católica nos últimos anos, o Vaticano acaba de lançar uma iniciativa que solicita às instituições religiosas ao redor do mundo que abandonem o investimento no setor de mineração.
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A decisão, anunciada durante um encontro em Roma que reuniu mais de 40 organizações católicas, ecumênicas e inter-religiosas, propõe um redirecionamento ético dos recursos financeiros das igrejas. “A motivação é perceber que essa estrutura das grandes mineradoras também chega até as nossas comunidades ou até as comunidades religiosas como forma de cooptar nossas vozes e nossa profecia”, explica Dom Vicente de Paula Ferreira, secretário-geral da Comissão de Ecologia Integral e Mineração da CNBB e bispo da Diocese de Livramento de Nossa Senhora (BA).
O religioso, que passou anos em Brumadinho e Mariana – cidades marcadas por dois dos maiores desastres socioambientais da história do Brasil –, alerta para o risco de que os ganhos financeiros provenientes da mineração silenciem a posição crítica das instituições religiosas. “Isso pode nos enganar e nos impedir de defender adequadamente os territórios e as comunidades afetadas”, ressalta.
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O chamado do Vaticano não se limita a um pedido de retirada de recursos do setor mineral, mas também oferece uma orientação sobre onde aplicá-los. “Nossa tarefa como igreja é investir nos setores populares, na agroecologia, nas comunidades que lutam pela proteção dos rios, das florestas, nos povos originários, nos quilombolas e nos pescadores”, orienta Dom Vicente.
A proposta é “tirar o dinheiro desses setores que exploram nossos territórios, destroem a natureza e as comunidades, e focar em aquilo que realmente garante a sustentabilidade do nosso planeta e da nossa gente”.
A proposta se baseia no conceito de ecologia integral, central na encíclica Laudato Si’ (2015) e reforçado em documentos posteriores. Dom Vicente explica que a encíclica identifica no “modelo tecnocrático da sociedade”, alicerçado na extração mineral, a raiz da crise climática e social. “Tudo depende desse setor.
Observamos hoje o conjunto de crises e guerras: tudo gira em torno de petróleo, minerais e terras raras. Isso sustenta a sociedade capitalista atualmente”, afirma o bispo. Ele adverte que o modelo extrativista predatório está levando o planeta ao limite, com o aquecimento global sendo uma preocupação urgente, conforme já alertado pela comunidade científica.
O bispo menciona o conceito de “sobriedade feliz” – uma das alternativas propostas pela ecologia integral – como contraponto ao consumismo exacerbado. “Se almejássemos o ideal de vida do 1% mais rico do mundo, não teríamos terra suficiente para isso”.
A Rede Igrejas e Mineração, que atua desde 2013 denunciando as violências ligadas à expansão da atividade mineradora na América Latina, coordenada pela Rede Ecumênica de Igrejas e Mineração, desempenha um papel fundamental na articulação internacional. “Primeiro, é não deixar a nossa voz se calar diante dos crimes socioambientais.
As coisas são maquiadas e escondidas, precisamos reverberar esse grito e essa voz: olha, isso está acontecendo, é real, não é imaginário”, afirma Dom Vicente. O bispo enfatiza a importância da mobilização popular, ressaltando que as transformações necessárias não virão de cima. “Esperamos pouco dessa minoria que detém 50% da riqueza do planeta.
Precisamos começar de baixo, com as organizações populares e a conscientização”.
Dom Vicente menciona uma campanha na Áustria que propõe “zerar o extrativismo de ouro”, não como uma meta impossível, mas como uma constatação de que o ouro já extraído é suficiente para as necessidades da sociedade. “Eles têm uma consciência interessante: não precisamos mais extrair o ouro da natureza.
O que já foi extraído é suficiente. E a pergunta básica: ouro serve para quê mesmo? E olha quantos danos fazem na natureza e nas comunidades com a extração de ouro”, questiona.
Autor(a):
Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.