Varejistas brasileiros enfrentam perdas de até 99,93% enquanto juros altos pressionam o setor
O cenário de juros altos e concorrência acirrada tem levado grandes varejistas brasileiros a perdas históricas, refletindo uma crise sem precedentes no setor.
As ações de grandes empresas do varejo brasileiro enfrentam um cenário preocupante, com perdas que chegam a 99,93% desde o início de 2020. Esse movimento se destaca em contraste com o desempenho do Ibovespa, que subiu 44,2% no mesmo período, passando de mais de 118 mil pontos em janeiro de 2020 para a atual marca.
Enquanto isso, o ICON, índice que agrega empresas ligadas ao consumo, viu sua pontuação cair 49,4%, reduzindo – se de quase 5.500 pontos para apenas 2.753 pontos. As baixas mais acentuadas ocorreram em companhias como Americanas e Casas Bahia, que acumulam quedas próximas de 100%.
Magazine Luiza e Marisa também foram severamente impactadas, com recuos superiores a 95% desde o início da pandemia.
Fatores que contribuíram para a desvalorização
Analisando os motivos por trás dessa desvalorização acentuada, é possível observar que antes deste colapso no mercado acionário, muitas dessas empresas vivenciaram um crescimento significativo. Em 2020, a taxa Selic caiu para 2%, favorecendo o consumo e aumentando o apetite por risco entre os investidores.
Entretanto, nos anos seguintes, a elevação da taxa tornou o crédito menos acessível tanto para consumidores quanto para as próprias empresas.
Bruno Perri, economista – chefe e sócio – fundador da Forum Investimentos, destacou em entrevista ao CNN Money que a alta dos juros encareceu não apenas as dívidas das empresas, mas também reduziu a capacidade de consumo das famílias. Ele observou que essa situação foi especialmente crítica para aquelas companhias que aumentaram sua alavancagem durante os anos de juros baixos. “Quando a gente teve essa alta da taxa de juros pra 15%, elas começaram a ter um custo de carrego dessa dívida muito elevado”, explicou Perri.
Além disso, algumas varejistas enfrentaram maior concorrência e perda de espaço em segmentos específicos. No setor de vestuário, houve uma entrada significativa de concorrentes estrangeiros; já no mercado eletrônico, fatores como juros altos e aumento dos custos se somaram à queda na demanda.
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Impactos das mudanças econômicas
Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio da Boa Brasil Capital, também relaciona essa queda ao cenário do mercado de crédito e à alta da Selic. O acesso ao crédito se tornou mais difícil para os consumidores e isso resultou em uma elevação na inadimplência.
Com margens pressionadas e dívidas mais caras, as lojas tiveram dificuldades adicionais.
No auge da pandemia, com a Selic em 2%, algumas varejistas chegaram a ser precificadas como empresas de tecnologia devido ao boom do consumo impulsionado pelo auxílio emergencial e pela migração do gasto dos serviços para bens duráveis.
Recuperações judiciais e ações desvalorizadas
A situação financeira delicada levou várias dessas empresas a buscarem recuperação judicial. Recentemente, uma companhia solicitou proteção na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais do Foro Central Cível de São Paulo para reorganizar suas finanças e renegociar cerca de R 17,3 bilhões em dívidas.
Em outro caso semelhante, uma rede de móveis também entrou com pedido na 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais em São Paulo devido a dívidas estimadas em R 140 milhões.
O economista Bruno Perri observa que as causas das dificuldades financeiras variam entre as empresas: enquanto algumas lidam com problemas operacionais diretos, outras se veem afligidas pela elevada alavancagem financeira. Essa deterioração resultou em ações sendo negociadas como “penny stocks”, ou seja, papéis cotados abaixo de R 1.
Um exemplo é o da Casas Bahia: suas ações caíram drasticamente de R 256,57 no início de 2020 para apenas R 0,43 em agosto de 2026.
Cenário futuro do varejo brasileiro
Conforme explicado por Bassani ao CNN Money, a B 3 considera uma empresa em descumprimento quando suas ações ficam abaixo do valor mínimo por um período contínuo. A empresa notificada tem seis meses para reenquadrar sua cotação através do agrupamento das ações — um processo que não altera sua saúde financeira nem resolve questões relacionadas às dívidas ou à concorrência.
O ambiente econômico atual torna difícil repetir o ciclo positivo observado entre 2020 e 2021. Com juros reais elevados e um consumo normalizado aliado à maior atratividade da renda fixa no mercado financeiro, muitos dos fatores que impulsionaram as varejistas durante os últimos anos não estão mais presentes.