Uma estrela vermelha

A comunista Jeannette Jara representa a esperança progressista nas eleições.

28/08/2025 17:44

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Uma estrela vermelha
(Imagem de reprodução da internet).

Em julho, durante as primárias da frente governista, 825 mil chilenos lançaram uma integrante do Partido Comunista como candidata à Presidência da República nas eleições marcadas para 16 de novembro. A advogada Jeannette Jara, ex-ministra do Trabalho e da Previdência, apelidada de “Lula de saias” por apoiadores entusiasmados, reconhecida pelos avanços sociais durante a passagem pelo governo, representará a coalizão de centro-esquerda atualmente no poder. “Jara é muito carismática e tem moderado sua imagem para se aproximar de um eleitorado mais ao centro. Nesta eleição, pela primeira vez, o voto será obrigatório e há expectativa de que os mais jovens optem em grande número por votar nela. Ao mesmo tempo, ela é associada à ex-presidente Michelle Bachelet, com quem trabalhou e que é muito respeitada entre os mais velhos. A maioria dos votantes tradicionalmente está na faixa entre os 50 e 70 anos”, avalia Paulina Areas Roldan, assessora legislativa.

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Quando Jara assumiu o ministério, em 2022, o Chile apresentava a terceira maior jornada de trabalho semanal da América Latina, ficando atrás apenas do México e da Costa Rica, conforme dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. A redução gradual para 40 horas sem perda de salário, a aprovação da Lei Kevin, voltada à prevenção ao assédio no ambiente de trabalho, a valorização de quase 50% do salário mínimo, atualmente próximo ao equivalente a 3 mil reais, e o reajuste no benefício previdenciário direcionado aos idosos mais pobres tornaram-se marcas da ministra e têm impulsionado a candidatura. “Muitas empresas aderiram à transição, principalmente as médias e pequenas, as maiores ainda relutam em garantir o direito dos trabalhadores. Por outro lado, a promessa era acabar com o regime das Administradoras de Fundos de Pensão, mas o mecanismo não foi abolido”, pondera Patricia Ortega, funcionária pública e coordenadora do movimento “Não Mais AFP”.

Jara, filha de trabalhadores, integrou o movimento estudantil antes de ingressar no PC chileno no final dos anos 90, uma década após o término da ditadura. O partido, como ocorreu em países vizinhos, foi proibido durante o regime brutal do general Augusto Pinochet. Os integrantes sofreram perseguições violentas. “O partido teve outros momentos importantes, começando pelo período no governo de Salvador Allende, mas a escolha de Jara é muito significativa, pois ela liderará a coalizão acima das forças social-democratas”, declara o jornalista Mauricio Gandara, editor da rádio BioBio, de Concepción.

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A ex-ministra do Trabalho é recordada por suas conquistas sociais durante o período em que esteve no cargo.

Na última eleição, vitorioso foi o jovem Gabriel Boric, com os comunistas eleitos dois senadores e dez deputados, incluindo Lorena Fries, na capital Santiago. “Uma bancada progressista pode evitar retrocessos da direita, cujas soluções como armar a população, fechar as fronteiras ou aumentar as penas de prisão não produzem os resultados esperados”, argumenta a parlamentar, em referência a pontos centrais da agenda reacionária.

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Os opositores vinculam Jara a Cuba e Venezuela e criticam o aumento do desemprego no governo atual, principalmente entre as mulheres. Uma pesquisa do instituto Cadem aponta que 78% dos entrevistados relataram conhecer alguém que perdeu o emprego nos últimos meses. “A candidata oficial demonstra ter a mente dividida entre o coração e a alma. É comunista, mas busca aparentar ser de direita, com declarações sobre manter as APs, negar o aborto livre, uma de suas bandeiras de luta, e tergiversando sobre seus planos de estatizar as minas de cobre e iodo. Está muito mal preparada, foi uma operadora política, mas não é uma líder e isso tem se demonstrado com sua queda nas pesquisas após ter vencido as primárias com um programa de sete páginas, uma vergonha”, critica o presidencialista Franco Parisi, do Partido da Gente.

Em 2021, Parisi obteve a terceira posição, sucedido por José Antonio Kast e Boric. “Não somos um país nem de comunistas (comunachos) nem de fascistas (fachos), somos de centro”, complementa. A afirmação é contestada pelas pesquisas, como a do instituto Poder Cidadão, que, assim como outras sondagens, aponta um empate técnico entre Jara e Kast, associado a Bolsonaro pelas bandeiras que adota e pela presença da família na política – dois irmãos e um filho concorrem a cargos públicos. “Entre os candidatos da direita deve haver migração de votos para aquele que passar ao segundo turno. Já o teto de crescimento de Jara está vinculado à gestão de Boric e, se o governo conseguir melhorar sua aprovação, a esquerda pode ter chances reais”, avalia Gandara.

A morte de seis trabalhadores no início do mês em uma mina de cobre da empresa pública Codelco, acidente mais grave registrado em três décadas no local e sob investigação, contribui, contudo, para desgastar os governistas. Os índices de violência e a migração, frequentemente associados, estão entre os temas que mais geram descontentamento generalizado na população. “A mídia expõe de maneira reiterada os migrantes latinos como o germe da delinquência, do narcoterrorismo e do aumento de crimes violentos. Isso é um recorte, qualquer um tem o direito de migrar conforme a normativa legal de cada país”, acredita a professora Catalina Ávila, atualmente em Barcelona e mestre em ciência, tecnologia e educação pelo Cefet do Rio de Janeiro. Ainda segundo a estudiosa, a sociedade chilena permanece permanentemente mobilizada desde a eclosão dos protestos de 2019 e das tentativas, ainda que frustradas, de aprovar uma nova Constituição. “Houve um ponto de inflexão a partir do triunfo de Jara, embora os conservadores continuem favoritos. Estamos diante de um novo cenário com protagonismo de um concorrente de extrema-direita contra uma comunista. Será uma clivagem simbólica muito interessante a partir dos resultados do primeiro turno”.

Publicado na edição nº 1377 de CartaCapital, em 03 de setembro de 2025.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Estrela vermelha”.

Fonte por: Carta Capital

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