Colapso Bilionário: Lições da Steward Health Care e Reflexões no Brasil
Um dos episódios mais alarmantes da história recente do setor de saúde global ocorreu em 2024 e 2025 com o desmoronamento da Steward Health Care, outrora uma das maiores redes privadas de hospitais dos Estados Unidos. O colapso, impulsionado por uma gestão financeira temerária, culminou em um calote bilionário e deixou milhares de pacientes e médicos em uma situação de vulnerabilidade extrema.
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O caso serve como um alerta sobre os riscos do capital especulativo no controle da gestão hospitalar.
O Modelo “Sale-Leaseback” e a Armadilha Financeira
A Steward construiu seu império através de uma manobra financeira conhecida como Sale-Leaseback. A empresa vendia os prédios de seus próprios hospitais para fundos imobiliários especializados, como o Medical Properties Trust (MPT), para obter dinheiro rápido.
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Em seguida, a Steward alugava esses mesmos prédios de volta para continuar operando. Embora essa estratégia tenha gerado liquidez imediata para a compra de novas unidades, ela criou uma armadilha fatal. A rede tornou-se refém de aluguéis caríssimos e reajustes constantes, enquanto o caixa sangrava para pagar investidores e distribuir dividendos milionários aos executivos, relegando a manutenção básica dos hospitais a segundo plano.
Crise em Massachusetts e Desacato ao Senado
Entre 2023 e 2024, a falta de capital atingiu o cotidiano dos 31 hospitais da rede. Em Massachusetts, a governadora Maura Healey precisou decretar a desapropriação emergencial de unidades, como o Saint Elizabeth’s Medical Center, para garantir que a população não ficasse sem atendimento básico.
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A crise transbordou para a esfera criminal, levando ao renúncia do Dr. Ralph de la Torre, fundador e CEO da Steward, após acusações de má gestão, e ao seu indiciamento por desacato criminal, devido à recusa em explicar o destino dos bilhões de dólares desaparecidos.
A situação intensificou a revolta pública e acelerou o processo de liquidação da empresa.
Reestruturação e Liquidação: O Caminho para a Recuperação
Já em 2025, o processo de falência sob o Capítulo 11 da lei americana avançou para a fase de liquidação. O tribunal aprovou planos que incluem a recuperação de recursos provenientes de litígios, com o objetivo de processar ex-executivos e sócios, como a Cerberus, buscando recuperar um montante superior a US$ 3 bilhões.
A viabilidade do plano se baseia no fato de que a Steward precisa reaver apenas 13% do valor total reivindicado para quitar integralmente as despesas da falência, com a meta de pagamento total até meados de 2027. Durante o processo, o escritório Weil, Gotshal & Manges faturou mais de US$ 100 milhões.
As autoridades já transferiram a maioria das unidades hospitalares para novos proprietários, garantindo a continuidade do atendimento aos pacientes.
Reflexões e o Sistema de Saúde no Brasil
Embora o modelo americano seja diferente do brasileiro, o colapso da Steward gera reflexões importantes. No Brasil, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) possui travas mais rígidas para evitar que beneficiários de planos de saúde fiquem desassistidos.
Isso significa que, em caso de insolvência de uma operadora, a ANS decreta a liquidação extrajudicial e coordena a transferência obrigatória dos clientes para outra operadora em até 90 dias, garantindo a continuidade do atendimento.
