SpaceX alerta antes do IPO que não há substituto para Elon Musk

A ausência de um plano de sucessão definido amplia o risco para investidores da SpaceX, cuja valorização também reflete as promessas de Elon Musk.

Elon Musk em imagem gerada por Inteligência Artificial

Antes de seu IPO em junho, a SpaceX alertou investidores para a dependência de Elon Musk, descrito como a principal força por trás do crescimento, da inovação e do desempenho operacional da empresa. O documento afirma que a eventual perda do CEO, por falecimento, invalidez ou qualquer outro motivo, poderia comprometer significativamente a estrutura de gestão.

A ressalva aparece em um império que reúne foguetes, robôs, satélites e inteligência artificial, com a ambição de “tornar a vida multiplanetária”. Para Dan Ives, analista de tecnologia e admirador de Musk em Wall Street, os investidores apostam tanto no empresário quanto nos negócios. “Só existe um Elon Musk, e não vão criar outro igual a ele”, afirmou.

Dependência de Musk chega aos investidores

O chamado risco de pessoa – chave não é exclusivo de Musk. Ele costuma atingir empresas nas quais o CEO tem status de celebridade e é visto como essencial para a operação. No caso da Tesla e da SpaceX, porém, a exposição alcança milhões de pequenos investidores por meio de fundos de índice.

A Tesla, avaliada em US 1 trilhão, tem forte presença no Nasdaq 100 e no SP 500. Já a SpaceX teve entrada acelerada no Nasdaq e poderá ser incluída no SP 500 já em meados de 2027. Somadas, as duas empresas representam um valor de mercado de US 3 trilhões.

Grande parte desse valor pode refletir o chamado “múltiplo Musk”, um prêmio difícil de medir que acompanha as promessas do empresário, como data centers orbitais, a colonização de Marte e milhões de robôs humanoides comercialmente viáveis.

Musk voltou a defender essas metas na terça – feira (1º), durante um discurso na Cúpula do G 20 na Carolina do Norte.

Sucessão ainda não está definida

A Tesla abriu seu capital em 2010 e alcançou o maior valor de mercado entre as montadoras, embora nunca tenha superado — ou sequer chegado perto de superar — as vendas da Toyota ou da General Motors. Os ganhos históricos atraíram seguidores de Musk, mas também investidores que possuem ações indiretamente em planos de aposentadoria 401 (k.

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Fundos que acompanham índices precisam comprar papéis das empresas que integram suas carteiras. A Nasdaq tem mais de 200 produtos desse tipo, entre eles o fundo Invesco QQQ e o ETF iShares NASDAQ 100, que reúnem mais de US 800 bilhões em ativos. Uma crise na liderança de Musk poderia, portanto, provocar perdas amplas.

Tim Quigley, professor de liderança estratégica e governança no Instituto Internacional para o Desenvolvimento da Gestão, disse que o mercado pode estar subestimando o problema. Ross Gerber, cofundador da empresa de investimentos Gerber Kawasaki, classificou Musk como “o maior risco” para a SpaceX e afirmou ao The Information este ano: “Eles não têm um plano de sucessão e não têm futuro se ele morrer”.

A SpaceX e a Tesla não responderam aos pedidos de comentários.

Controle sobre a SpaceX preocupa especialistas

Musk fundou a SpaceX em 2002 e controla 48% da empresa por meio de ações Classe A e Classe B. Como concentra a maioria dos papéis com direito a voto diferenciado, ele tem, na prática, controle total do conselho e só poderia ser destituído caso decidisse deixar o cargo.

A companhia não aparenta ter um plano formal de sucessão. No prospecto de IPO, reconheceu depender da continuidade dos serviços e do desempenho de Musk, cuja liderança, visão e experiência seriam essenciais para suas tecnologias e para a estratégia de negócios.

O documento também informa que a SpaceX não possui seguro de vida para pessoa – chave em nome de Musk e não sabe ao certo como, ou mesmo se, conseguiria substituí – lo. “O processo de identificação de um sucessor com a combinação de habilidades e experiência que o Sr.

Musk possuía pode ser longo e incerto”, afirmou a empresa.

O precedente de Steve Jobs

Especialistas ouvidos para a análise citaram Steve Jobs, cofundador e CEO de longa data da Apple, como um dos poucos executivos comparáveis a Musk nesse tipo de dependência. Jobs morreu em 2011, aos 56 anos, e sua personalidade estava fortemente associada à identidade da empresa.

Em 2008, uma notícia falsa sobre a morte de Jobs fez as ações da Apple recuarem 9%. A Tesla também reagiu a informações sobre Musk: depois de ele dizer ao New York Times em 2018 que trabalhava “semanas de 120 horas” e usava Ambien para dormir, os papéis despencaram.

Jobs criou a “Apple University”, um programa interno e secreto de treinamento executivo para preservar sua visão dentro da companhia. Quando deixou o cargo em agosto de 2011, a Apple já tinha Tim Cook como uma figura conhecida e considerada estabilizadora em Wall Street; as ações caíram brevemente 5% antes de se recuperar.

Para Dan Ives, a sucessão de Musk terá de ser discutida em algum momento. “Acho que os investidores entendem o risco. Eles o levam em consideração, mas ele permanece em segundo plano”, disse.