Solastalgia: O Sofrimento Psicológico em Tempos de Crise Ambiental
A degradação acelerada dos ecossistemas, aliada a eventos climáticos extremos, tem gerado um sofrimento psicológico específico: a solastalgia. Esse conceito se refere ao impacto emocional de viver em um local que está mudando ou se deteriorando, representando uma “saudade do presente”.
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Essa sensação tem se tornado mais comum em comunidades afetadas por enchentes, secas e incêndios.
O termo, criado em 2007 pelo filósofo australiano Glenn Albrecht, deixou de ser uma mera metáfora e passou a ser reconhecido na literatura científica. Um artigo recente destacou que a solastalgia serve como um indicador sensível do desgaste psíquico causado pela crise ambiental, manifestando-se em sintomas como irritabilidade, angústia e distúrbios do sono.
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A Importância de Nomear o Sofrimento
“Dar nome a esse sofrimento é crucial, pois o reconhece como legítimo, com causas e contextos específicos”, afirma Lucas Marques, psicólogo e professor do departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
Ele ressalta que nomear é o primeiro passo para estudar e compreender esse fenômeno, que se revela como uma experiência social contemporânea.
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Marques enfatiza que o conceito de solastalgia é fundamental para mudar a perspectiva sobre a saúde mental, focando na relação das pessoas com seu território. “Cuidar da mente também envolve cuidar dos ecossistemas e das formas de vida que nos cercam”, destaca.
Críticas ao Modelo Psiquiátrico
O artigo argumenta que a solastalgia ainda não é reconhecida nas classificações psiquiátricas tradicionais, como o DSM e a CID. Isso ocorre não por falta de relevância, mas porque desafia a visão de sofrimento individual desconectado do ambiente. “O cuidado deve ser relacional, pois o sofrimento coletivo exige uma abordagem coletiva”, afirma o pesquisador.
Ele acrescenta que é necessário abandonar a ideia de que cuidar da saúde mental é apenas adaptar o indivíduo ao que já existe. Muitas vezes, cuidar significa fortalecer a capacidade de imaginar e construir novos futuros coletivos.
Impactos e Sintomas da Solastalgia
Os sintomas da solastalgia são semelhantes aos de outras condições, mas o que os desencadeia é específico. O foco não deve ser transformar esse sofrimento em um diagnóstico, mas sim mensurar seu impacto na vida cotidiana. “O quanto isso nos paralisa é o que determina se se aproxima de um transtorno psiquiátrico”, explica Daniel de Paula Oliva, psiquiatra do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental.
Oliva observa que o conceito de solastalgia pode evidenciar limites impostos por fatores externos, como as mudanças ambientais, que afetam a saúde mental além do que pode ser tratado individualmente. “O termo pode ser visto como uma percepção da finitude dos recursos e do modelo de vida atual”, afirma.
Relação com Outras Emoções
A solastalgia se relaciona com outras emoções ligadas às mudanças climáticas, como a ansiedade climática e o luto ecológico. Enquanto a primeira está associada à angústia pela incerteza, o luto ecológico surge de perdas irreversíveis, como a destruição de ecossistemas.
A solastalgia, por sua vez, trata do sofrimento presente, ligado a um processo de perda ainda em andamento.
Esses conceitos são complementares e juntos delineiam um espectro de respostas psicológicas às mudanças ambientais, que vão da ansiedade ao luto e ao sofrimento imediato. “Esse processo psicológico pode gerar tanto paralisia quanto mobilização para uma vida mais saudável com o planeta”, observa o psiquiatra.
Solastalgia na Prática
Embora o termo possa parecer abstrato, seus efeitos são concretos em populações que enfrentam transformações rápidas no ambiente. Oliva nota um aumento da angústia entre pacientes que sentem seu futuro ameaçado. “Veremos pessoas que perderam entes queridos ou que mudaram de lugar devido às mudanças climáticas”, afirma.
O artigo da Nature destaca que esse sofrimento tende a afetar populações vulneráveis, como indígenas e moradores de periferias urbanas, onde os impactos ambientais e sociais se combinam, gerando uma carga emocional desproporcional. “Reconhecer a solastalgia é um ato de justiça epistêmica, legitimando formas de sofrimento historicamente excluídas”, conclui o texto.
Transformando o Conceito em Ação
O desafio é transformar a solastalgia em uma ferramenta de compreensão para antecipar os impactos emocionais da crise ambiental. Marques afirma que o cuidado deve reconhecer o território como parte da saúde. “Saúde mental é um tema ecológico e social”, ressalta.
É essencial abordar o impacto emocional da crise climática em diversas esferas, como escolas e políticas públicas. “Precisamos de cidades com acesso à natureza e políticas que considerem saúde e bem-estar como objetivos centrais”, conclui. A crise climática é real, mas as formas de enfrentá-la também são, envolvendo cuidado, território e comunidade.
