Alunos e profissionais aumentam o uso de suplementos para foco e concentração, mas especialistas alertam sobre riscos de dependência e desigualdade.
A promessa de um comprimido capaz de aumentar o foco, a concentração e a memória se torna cada vez mais sedutora em uma sociedade competitiva. Não por acaso, os chamados “smart drugs” têm se popularizado, gerando preocupação na comunidade científica.
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São medicamentos já conhecidos para o tratamento de distúrbios como o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e narcolepsia, mas usados sem indicação médica por quem acredita precisar de um estímulo extra no dia a dia. Entre esses fármacos estão o metilfenidato, vendido como Ritalina e Concerta; lisdexanfetamina, conhecida como Venvanse; ou a modafinila, comercializada como Provigil.
Um levantamento conduzido pela Universidade de Exeter durante a pandemia de Covid-19 e publicado na revista Frontiers in Psychology acompanhou 736 estudantes e funcionários de universidades no Reino Unido. O estudo revelou um crescimento de 42% no uso de modafinila e de 30% no consumo de nutracêuticos em altas doses. “Do ponto de vista clínico, esses medicamentos podem até trazer alguns efeitos positivos, mas é importante colocar isso em perspectiva”, afirma o psiquiatra Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Saúde Mental e Bem-Estar, do Einstein Hospital Israelita. “Em pessoas saudáveis, os efeitos costumam ser pequenos, passageiros e muito longe da ideia de um ‘remédio que aumenta a inteligência’.”
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Na prática, o uso de smart drugs em pessoas saudáveis revela um descompasso: enquanto muitos relatam se sentir mais focados e produtivos, os resultados objetivos mostram ganhos pequenos ou inexistentes. Um estudo da Universidade de Melbourne, na Austrália, publicado em 2023, avaliou o desempenho em tarefas complexas e concluiu que, embora essas substâncias aumentem o esforço cognitivo — como o tempo gasto e o número de movimentos —, elas reduzem a qualidade desse esforço.
O uso de substâncias para otimizar a performance acadêmica e profissional levanta dilemas que vão além da saúde individual. Especialistas chamam atenção para questões de mérito, acesso desigual e até paralelos com o doping esportivo. “A sociedade e os governos precisam considerar quem teria acesso às drogas para aprimoramento cognitivo”, destaca a pesquisadora de Cambridge. “Por exemplo, seriam permitidas em situações competitivas, como exames universitários, em que alguns estudantes podem considerar esse uso uma trapaça?”
Em vez de buscar atalhos, é fundamental priorizar hábitos que sustentem o cérebro em longo prazo. Sono adequado, exercício físico, alimentação equilibrada e estratégias de manejo do estresse não apenas favorecem o desempenho cognitivo, mas também protegem a saúde no longo prazo.
Autor(a):
Com uma carreira que começou como stylist, Sofia Martins traz uma perspectiva única para a cobertura de moda. Seus textos combinam análise de tendências, dicas práticas e reflexões sobre a relação entre estilo e sociedade contemporânea.