Seca e dragagens em risco no Tapajós podem comprometer escoamento de 5,5 milhões de toneladas
A falta de dragagens no Rio Tapajós pode elevar os custos logísticos em até R 500 milhões, afetando o escoamento de até 5,5 milhões de toneladas de grãos.
A situação do Rio Tapajós, essencial para o escoamento de grãos como soja e milho do Mato Grosso para os portos do Pará, está sob grande preocupação. A falta de dragagens no rio, que podem elevar os custos logísticos em até R 500 milhões, compromete o transporte de até 5,5 milhões de toneladas desses produtos.
O alerta se intensifica com a chegada do fenômeno El Niño, que promete chuvas abaixo da média e temperaturas mais altas na região.
No segundo semestre de 2026, o nível das águas do Tapajós pode cair drasticamente devido à combinação de menor precipitação e maior evaporação. Para o agronegócio, essa situação é crítica, já que o rio tornou – se um dos principais corredores logísticos, especialmente após um aumento de 14,3% no volume escoado em 2025.
Dependência logística e produção agrícola
A rota logística começa em Mato Grosso, onde a produção é transportada por caminhões até Miritituba, em Itaituba (PA). De lá, as cargas seguem por barcaças pelo Tapajós até os portos de Santarém e Barcarena. Essa configuração foi adotada para diminuir a dependência dos corredores logísticos do Sul e Sudeste do Brasil.
Estimativas indicam que entre 5 milhões e 5,5 milhões de toneladas de grãos podem ter seu escoamento comprometido se houver restrições no calado durante a estiagem. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que transferir essas cargas para rotas alternativas pode aumentar os custos logísticos em pelo menos R 500 milhões.
Jesualdo Silva, da Associação Brasileira dos Terminais Portuários (ABTP), destaca que não é viável transportar esses produtos por estrada devido à infraestrutura precária da BR 163 e ao fato de que os terminais foram projetados para receber grandes volumes via barcaças.
Impacto sobre o abastecimento regional
A hidrovia também é vital para o transporte de fertilizantes e combustíveis que abastecem cidades na região. Nos primeiros meses de 2026, soja e milho representaram 86% das 2,38 milhões de toneladas transportadas pela hidrovia. Assim como as exportações agrícolas, a movimentação desses insumos é crucial para a economia local.
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Ricardo Alban, presidente da CNI, ressalta que uma infraestrutura eficiente é fundamental para a competitividade da indústria brasileira. Ele afirma que a dragagem das áreas críticas do Tapajós é uma necessidade urgente para evitar impactos negativos sobre o abastecimento e a logística regional.
A proposta discutida pelo setor produtivo não contempla a criação de novas hidrovias ou mudanças significativas no curso do rio. As intervenções visam apenas remover sedimentos acumulados em locais críticos.
Conflitos com comunidades indígenas
No entanto, as dragagens enfrentam resistência dos povos indígenas da região. Em janeiro deste ano, o governo federal lançou um edital de R 74,8 milhões para dragagens entre Santarém e Itaituba como parte do Plano Anual de Dragagem Aquaviária. Contudo, após protestos indígenas, o processo foi suspenso para discutir consultas prévias com as comunidades afetadas.
O Tribunal de Contas da União determinou que qualquer retomada das dragagens deve ocorrer somente após obter licença ambiental prévia e realizar consultas adequadas às populações locais. Há preocupações sobre a classificação dessas intervenções como meras manutenções quando algumas áreas nunca receberam esse tipo de serviço anteriormente.
Renata Utsunomiya, analista de políticas públicas do GT Infra, alerta sobre os potenciais danos à biodiversidade e aos modos de vida das comunidades ribeirinhas caso as dragagens sejam realizadas sem estudos prévios adequados.
Soluções logísticas em debate
Entidades como a ABTP defendem que as intervenções devem ser feitas antes que a estiagem se agrave. Atualmente, apesar das preocupações com o nível das águas, a navegação ainda está ocorrendo normalmente em trechos navegáveis com calado entre 4,8 e 5 metros.
O DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) informou que decidiu não realizar as dragagens neste momento após avaliar aspectos logísticos e ambientais envolvidos na questão. O órgão acredita que a navegação local poderá continuar mesmo diante da redução do nível das águas.
A alternativa rodoviária ainda não é considerada ideal devido à falta de infraestrutura suficiente nas rotas disponíveis. Historicamente, períodos de seca têm mostrado um impacto significativo na logística agrícola na Amazônia.
Histórico climático e desafios futuros
O fenômeno climático El Niño tem potencial para intensificar essas dificuldades logísticas já enfrentadas pelo setor agrícola nos últimos anos. A Conab já registrou deslocamentos significativos na distribuição do milho devido às secas severas em anos anteriores.
A hidrovia do Tapajós transportou 16,8 milhões de toneladas em 2025 e sua importância no sistema logístico brasileiro vem crescendo constantemente. No primeiro bimestre deste ano foram já movimentadas 2,38 milhões de toneladas.
No entanto, debates sobre quem deverá arcar com os custos das dragagens emergenciais continuam em pauta. O setor privado expressou disposição para cobrir esses gastos desde que tenha autorização governamental adequada.
Líderes indígenas alertam sobre os riscos associados às dragagens sendo utilizadas como justificativa para expandir corredores logísticos com possíveis impactos significativos nas comunidades locais e no meio ambiente. Após reuniões com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em julho passado, eles afirmaram ter recebido garantias contra possíveis intervenções indesejadas no rio Tapajós.