Robô social inspirado em Bodhisattva é criado por pesquisadores brasileiros e internacionais
Pesquisadores da UFLA, Ontario Tech University e Hongik University criam robô social inspirado em bodhisattva, promovendo interações significativas e musicais.
Desenvolvimento de Robô Social com Aparência de Bodhisattva
Um robô social que se assemelha a um bodhisattva, uma figura iluminada na perspectiva budista que permanece no mundo para auxiliar os outros, foi criado por pesquisadores da Universidade Federal de Lavras (UFLA), em Minas Gerais, da Ontario Tech University, no Canadá, e da Hongik University, na Coreia do Sul.
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Utilizando impressão 3D a partir de escaneamento digital de alta resolução, o robô reproduz em tamanho real uma estátua budista do início do século 7 d.C., considerada um “tesouro nacional” da Coreia. O dispositivo é capaz de interagir com os usuários através de movimentos sutis de cabeça, tronco e braços, além de reconhecer gestos e fala.
“Além disso, com comandos, o sistema pode gerar música que se alinha ao estado meditativo do usuário. Essa música é criada por inteligência artificial com base em cânones budistas”, explica André de Lima Salgado, professor do Departamento de Ciência da Computação da UFLA e coordenador da equipe brasileira.
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O trabalho foi publicado nos anais da 2025 IEEE International Conference on Collaborative Advances in Software and Computing (Cascon), realizada em Toronto, no Canadá.
Objetivos e Inovações do Projeto
O modelo foi desenvolvido como uma prova de conceito para uma nova geração de sistemas de interação humano-robô que são culturalmente situados. “O objetivo principal foi demonstrar como grandes modelos de linguagem, em conjunto com inteligência artificial multimodal e arquitetura modular, podem facilitar interações socialmente significativas entre humanos e máquinas em contextos culturais e espirituais”, afirma Salgado.
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A ideia de robôs que promovem interação social tem sido explorada nos últimos 15 anos, mas poucos estudos se concentraram em sistemas robóticos projetados para incorporar características simbólicas em contextos místico-filosóficos ou religiosos.
Esses dispositivos se diferenciam por não tentarem imitar pessoas, mas por representarem figuras espirituais, integrando elementos iconográficos, vestimentas e comportamentos ritualísticos.
Características Técnicas e Funcionalidades
“Atendendo à demanda dos coreanos, buscamos reproduzir com precisão o formato da escultura conhecida como ‘Tesouro Nacional nº 83’. O modelo foi dividido em módulos estruturais, o que permite uma montagem rápida e a instalação de componentes internos.
Motores controlados por microcontroladores possibilitam que o robô se mova”, informa Salgado. O robô possui 93 centímetros de altura e permanece sentado, assim como a escultura original.
Um aspecto importante é sua habilidade de reconhecer gestos simbólicos (mudrās) realizados pelas pessoas que interagem com ele. Os pesquisadores foram cuidadosos, pois os mudrās têm formatos específicos nas tradições hinduístas e budistas, e uma pequena variação pode alterar completamente o significado.
O reconhecimento de um gesto conhecido, como o abhaya mudrā, foi bem-sucedido em 75% das tentativas.
Modelo de Funcionamento e Futuras Aplicações
O sistema foi estruturado segundo o paradigma sense-think-act (perceber-pensar-agir). Nesse modelo, cada comportamento é implementado como um nó independente, capaz de receber dados, processá-los e gerar ações. Essa abordagem descentralizada permite que os módulos deleguem tarefas entre si por meio de um protocolo de comunicação, aumentando a escalabilidade e robustez do sistema, conforme afirma Salgado.
Os pesquisadores notaram que arquiteturas centralizadas tendem a ser frágeis e difíceis de expandir, enquanto redes de módulos autônomos possibilitam comportamentos mais complexos e adaptáveis. O robô utiliza um modelo de linguagem de máquina leve, executado localmente por meio de um notebook acoplado ao sistema, com todo o processamento ocorrendo off-line após um treinamento prévio em infraestrutura de maior capacidade.
Resultados e Perspectivas Futuras
Outra inovação foi a utilização de um modelo CLIP, uma rede neural multimodal que associa imagens a textos, permitindo reconhecê-las e classificá-las. “Os resultados mostraram um desempenho elevado na identificação visual de símbolos culturalmente relevantes, alcançando 85,64% de acerto para arquitetura e 85,06% para animais associados ao contexto religioso”, relata Salgado.
Embora o projeto tenha sido concebido para enriquecer a experiência de visitantes em museus coreanos, os pesquisadores veem potencial para a tecnologia em outras áreas. Uma linha futura envolve robôs sociais que possam auxiliar agricultores, um grupo que apresenta altos níveis de estresse e isolamento social.
O protótipo sugere que a robótica social, a inteligência artificial e o patrimônio cultural podem convergir para criar uma nova categoria de interfaces, que não apenas executam tarefas, mas também interagem simbolicamente com os humanos.
A próxima fase do projeto prevê estudos longitudinais em ambientes reais para avaliar confiança, engajamento e impacto psicológico nos usuários. O estudo recebeu apoio da FAPESP por meio do Projeto Temático “Da semente à xícara: internet das coisas na cadeia produtiva de cafés de qualidade”, do qual Salgado é pesquisador associado.