A crise climática deixou de ser uma ameaça distante e se manifesta de forma alarmante no cotidiano das cidades, especialmente nas favelas, subúrbios e periferias do Rio de Janeiro. A situação é tão evidente que os argumentos negacionistas perderam credibilidade diante dos impactos concretos: enchentes, calor extremo e a crescente escassez de água. É imperativo reconhecer uma realidade que historicamente foi negligenciada, que impacta diretamente a vida de milhões de pessoas.
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O Rio de Janeiro enfrenta uma complexa conjuntura, marcada por crises políticas e, com um ano eleitoral se aproximando, a discussão sobre saneamento básico assume uma importância crucial. É fundamental analisar como essa questão se relaciona com a dignidade e a precariedade que afetam grande parte da população.
A cidade revela uma desigualdade histórica, evidenciada por dados recentes do Instituto Trata Brasil, que aponta para quatro municípios entre os piores do país em saneamento básico: Belford Roxo, São Gonçalo, Duque de Caxias e São João de Meriti.
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Essa concentração de problemas em áreas da Baixada Fluminense e regiões periféricas revela o racismo ambiental, onde a ausência de políticas públicas afeta de forma desproporcional a população negra, pobre e trabalhadora. A falta de saneamento não se limita a números, mas se manifesta no dia a dia, com a água que desaparece, o esgoto a céu aberto e as casas que são inundadas durante as chuvas.
Histórias de famílias humildes que colocam seus eletrodomésticos em cima de tijolos para evitar danos são comuns, refletindo um cenário que amplia doenças, sobrecarrega o sistema de saúde e aprofunda desigualdades sociais.
A precariedade do saneamento básico é agravada pela privatização dos serviços, que se apresenta como solução, mas na prática resulta em tarifas mais altas e serviços de qualidade inferior. A água, que deveria ser um direito humano, é tratada como mercadoria, aprofundando a exclusão social. É inaceitável que, em pleno século XXI, ainda existam territórios no Rio de Janeiro sem acesso adequado à água e ao saneamento, com consequências graves para a saúde e a segurança ambiental.
Defender o saneamento básico é defender a vida, é enfrentar a crise climática com justiça social e garantir que nenhum cidadão seja considerado descartável.
É urgente que esse tema seja colocado no centro das decisões políticas. Fiscalizar concessionárias, garantir transparência, ampliar investimentos e assegurar o acesso universal à água são medidas que devem ser priorizadas. Em ano de eleições, é preciso cobrar dos candidatos que se comprometam com o saneamento básico, pois a falta de preocupação com essa pauta representa uma ameaça à vida da população.
Desconfie de quem não se importa com essa questão e fala de defesa à vida.
Monitoramento Popular Na semana passada, lançamos a plataforma De Olho na Água, uma iniciativa coletiva de movimentos sociais, pesquisadores da Fiocruz e nosso mandato, que reúne dados em tempo real sobre acesso à água, esgotamento sanitário e outras condições de saneamento. A plataforma permite o registro de informações pela população, funcionando como um instrumento de denúncia, monitoramento e pressão política. Acesse https://www.deolhonahaqua.com.br/, participe, registre sua realidade e faça sua denúncia!
A transformação engrena quando a população se organiza, produz e dissemina informação e cobra seus direitos. E aí, tá de olho na água?
Dani Monteiro é deputada estadual (Psol/RJ) e presidenta da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Alerj.
Autor(a):
Com formação em Jornalismo e especialização em Saúde Pública, Lara Campos é a voz por trás de matérias que descomplicam temas médicos e promovem o bem-estar. Ela colabora com especialistas para garantir informações confiáveis e práticas para os leitores.
