Rendimento do título de 10 anos dos EUA atinge 5,34%, maior nível desde 2002
Rendimento recorde dos títulos americanos reflete economia aquecida e inflação persistente, pressionando mercados globais.
O mercado de títulos dos Estados Unidos vive um momento de tensão que não se via há décadas. O rendimento do título de referência de 10 anos do Tesouro americano atingiu o maior patamar desde o estouro da bolha das empresas ponto – com, no fim dos anos 1990.
O movimento surpreende investidores e acende alertas sobre os rumos da economia global.
Em vez de buscar refúgio nos papéis do governo americano — considerados os mais seguros do mundo —, os operadores estão vendendo seus títulos e exigindo taxas cada vez mais altas. O resultado é uma escalada nos rendimentos que já começa a pesar no bolso dos americanos.
Rendimentos disparam e atingem níveis históricos
O rendimento do título de 10 anos chegou a 5,34%, o maior desde 2002. Os títulos de 30 anos também dispararam, atingindo o nível mais alto em mais de duas décadas. A última vez que os investidores viram algo parecido foi em 2007, no período que antecedeu a crise financeira global.
“Há uma carnificina no mercado de títulos”, afirmou Neil Wilson, estrategista do banco de investimentos Saxo. “A preocupação é que o crescimento dos EUA está muito mais forte do que o esperado.”
Os números recentes confirmam esse cenário. Na quarta – feira (30), o governo americano divulgou um relatório do Produto Interno Bruto (PIB) acima das expectativas, além de dados de inflação que mostram os preços subindo bem acima da meta do Federal Reserve.
O mercado de trabalho também segue aquecido: o relatório de empregos de setembro, que será divulgado na sexta – feira, deve mostrar a taxa de desemprego mantida em 4,1%, nível considerado de pleno emprego pelos economistas.
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Inflação e gastos com IA pressionam o mercado
Os motivos para a alta dos rendimentos são variados e, em parte, contraintuitivos. A economia americana está forte — talvez forte demais. Os gastos massivos com inteligência artificial, que já são medidos em trilhões de dólares anuais, sustentam o crescimento mesmo com juros altos.
O consumo das famílias segue robusto, impulsionado por um mercado de ações aquecido.
Mas a inflação resiste, pressionada pelo aumento dos custos de combustível. Preços mais altos corroem os investimentos ao longo do tempo, e os detentores de títulos exigem taxas que compensem esse efeito. Até agora, porém, os rendimentos mais altos não atraíram compradores suficientes para aliviar a pressão.
O Federal Reserve deve responder a esse cenário com novos aumentos na taxa de juros de referência já na próxima reunião, ainda neste mês. As taxas de hipotecas e financiamentos de veículos continuam subindo — o empréstimo imobiliário de 30 anos superou 7% pela primeira vez desde o início de 2025 na semana passada.
Crise fiscal e reflexos globais
Os gastos do governo americano também pesam sobre o mercado de títulos. A trajetória fiscal do país é considerada insustentável por analistas, com despesas massivas bancadas por ambos os partidos políticos. Isso eleva a percepção de risco e empurra os rendimentos para cima.
O problema não é exclusivo dos Estados Unidos. Preocupações com dívida e a ressurgência da inflação, impulsionada pelos altos preços do petróleo e dos combustíveis, têm elevado as taxas ao redor do mundo. Na quinta – feira, o título do governo britânico de 30 anos atingiu 6% pela primeira vez desde 1998.