Quebra da patente da semaglutida gera expectativa por alternativas, mas resultados variam entre

A quebra da patente da semaglutida gera novas esperanças por alternativas acessíveis, mas a eficácia dos tratamentos pode surpreender. Descubra mais!

27/04/2026 15:11

5 min

Quebra da patente da semaglutida gera expectativa por alternativas, mas resultados variam entre
(Imagem de reprodução da internet).

Aumento da Expectativa por Alternativas à Semaglutida

A quebra da patente da semaglutida, ocorrida em março, elevou as expectativas por opções mais acessíveis das canetas antiobesidade, conhecidas como “emagrecedoras”, incluindo medicamentos como Ozempic e Wegovy. No entanto, muitos desconhecem que os efeitos desses fármacos na perda de peso não são uniformes.

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Há evidências de que um em cada dez pacientes não alcança o peso desejado nos primeiros meses de tratamento.

O percentual de não resposta varia na literatura científica. No ensaio clínico STEP 1, publicado em 2021, aproximadamente 14% dos participantes que utilizaram semaglutida não conseguiram perder pelo menos 5% do peso corporal. Em um estudo internacional com tirzepatida, a taxa de não resposta foi de 9,1% entre os que receberam a dose de 15 mg, enquanto nas dosagens de 10 mg e 5 mg, os percentuais foram de 11,1% e 14,9%, respectivamente.

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Variabilidade na Resposta ao Tratamento

Segundo o endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita, essa variabilidade é esperada. “Cada pessoa reage de uma maneira ao medicamento. Podemos afirmar que entre 5% a 10% dos pacientes não apresentam uma boa resposta a esse tipo de tratamento.” A resposta ao medicamento também depende do ajuste progressivo da dose, uma estratégia que visa reduzir efeitos colaterais e melhorar a tolerância.

Em algumas situações, pode ser necessário recuar temporariamente ou aumentar a dose de forma mais lenta. Por isso, é essencial que o paciente não interrompa o uso por conta própria, mas mantenha acompanhamento médico para ajustar a estratégia e garantir a manutenção do peso perdido a longo prazo.

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Fatores que Influenciam a Não Resposta

Os casos de não resposta ao tratamento raramente têm uma única causa. A literatura aponta que uma combinação de fatores biológicos, clínicos e comportamentais pode explicar por que alguns pacientes não alcançam os resultados esperados. Pacientes com diabetes, por exemplo, costumam ter uma resposta menos eficaz em termos de perda de peso em comparação com aqueles sem a doença, possivelmente devido à resistência à insulina, conforme sugere Rosenbaum.

Um estudo publicado em 2024 analisou dados de 4.467 adultos com diabetes tipo 2 em tratamento com liraglutida, semaglutida ou dulaglutida. Apenas 14% conseguiram melhorar significativamente o controle da glicose no sangue e perder pelo menos 5% do peso corporal.

Fatores como peso inicial, idade, duração do diabetes e função renal também podem influenciar os resultados.

A Importância da Dose e da Farmacocinética

A dose do medicamento é um aspecto crucial. Em um ensaio publicado em 2025, a semaglutida de 7,2 mg demonstrou ser mais eficaz do que a de 2,4 mg na redução do peso corporal em adultos com obesidade e sem diabetes. Após 72 semanas, a perda média foi de 18,7% com a dose mais alta, em comparação a 15,6% com a dose padrão.

Aqueles que receberam 7,2 mg tiveram maior probabilidade de alcançar perdas de 20% e 25%.

Além disso, a farmacocinética, que se refere à forma como o organismo absorve e metaboliza o medicamento, também desempenha um papel importante. Um estudo de 2021 mostrou que a resposta clínica à semaglutida depende principalmente dos níveis da droga no sangue, e não da via de administração.

A pesquisa indicou que um maior peso corporal está associado a uma menor exposição ao medicamento, o que pode explicar parte da variação na resposta.

Interferências e Componentes Genéticos

O uso de outros medicamentos pode interferir na eficácia do tratamento. A Sociedade de Endocrinologia recomenda a reavaliação de fármacos que possam favorecer o ganho de peso e, quando possível, a substituição por alternativas neutras ou que ajudem na perda.

Exemplos incluem insulina, antidepressivos e anticonvulsivantes.

Além disso, um componente genético pode influenciar a variabilidade na resposta ao tratamento. Um estudo recente com 27.885 pessoas identificou uma variante no gene do receptor de GLP-1 associada a uma maior eficácia do tratamento, além de associações entre variantes genéticas e maior risco de efeitos colaterais, como náuseas e vômitos.

Ajustes na Abordagem Terapêutica

Quando o tratamento não atinge os resultados esperados, a primeira medida é revisar a abordagem terapêutica. O consenso da Sociedade de Endocrinologia sugere verificar se o ajuste da dose foi feito corretamente e se houve continuidade no uso. Fatores clínicos e comportamentais, como dieta e qualidade do sono, também devem ser avaliados.

Após essa revisão, aplica-se a regra de resposta mínima. Se o tratamento for considerado eficaz, a recomendação é mantê-lo com acompanhamento periódico. Caso a resposta seja insuficiente, a estratégia pode ser ajustada, incluindo mudanças no estilo de vida ou troca do medicamento.

Custo-Benefício e Acesso aos Tratamentos

Em tratamentos com custos elevados, como semaglutida e tirzepatida, a diferença entre quem responde bem e quem obtém benefícios limitados impacta diretamente a análise de custo-efetividade. Países como o Reino Unido e o Canadá têm adotado critérios rigorosos para a indicação e financiamento dessas terapias.

No Brasil, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) avaliou, em agosto de 2025, um pedido da Novo Nordisk para incorporar os medicamentos ao Sistema Único de Saúde (SUS) no tratamento da obesidade, mas a proposta foi rejeitada devido ao alto impacto orçamentário.

Em 2026, a Novo Nordisk anunciou um programa piloto para oferecer o Wegovy na rede pública em estados como Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, visando gerar dados sobre o impacto clínico e econômico do tratamento.

Rosenbaum ressalta que ampliar o acesso no sistema público não deve alterar a proporção de pacientes que respondem ou não ao tratamento, sendo fundamental alinhar expectativas desde o início e evitar interrupções sem acompanhamento médico.

Autor(a):

Apaixonada por cinema, música e literatura, Júlia Mendes é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de São Paulo. Com uma década de experiência, ela já entrevistou artistas de renome e cobriu grandes festivais internacionais. Quando não está escrevendo, Júlia é vista em mostras de cinema ou explorando novas bandas independentes.

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