Pipas sob ameaça militar em Gaza após alertas israelenses

Pipas sob ameaça militar em Gaza após alertas israelenses e acusações contra Hamas por usar crianças em atos considerados perigosos.

Crianças brincam em Khan Yunis, no sul da faixa de Gaza – foto: Bashar Taleb /AFP

Para Ahmed Hamdouna, um garoto que viveu o trauma da guerra na Faixa de Gaza e teve sua infância destroçada pelo conflito armado, empinar pipas representava uma das poucas fontes de alegria.

No entanto, esse passatempo simples está sob ameaça constante: Israel alertou sobre a intensificação de operações militares caso as piadas continuem caindo em seu território após anos de incêndios nas terras agrícolas do sul. O país acusa movimentos como Hamas por usar crianças nessas ações, vendo no brincar algo potencialmente perigoso para si mesmo.

A tensão entre o brinquedo e operação militar

Ahmed Hamdouna conta à AFP que foi proibido pelo pai empinar suas pipas devido às constantes amenazas da ocupação israelense enquanto estava deslocado na área de Deir al – Balah, centro da Faixa de Gaza. Ele expressa indignação com a situação: “Eles destruíram nossas casas e todo nosso bairro; o que mais querem?”, questionou ele, cansado do tempo gasto juntando gravetos e náilon apenas para criar brincadeiras inutilizáveis hoje.

O clima se tornou ainda mais tenso nos últimos dias após serem encontradas várias piadas lançadas em áreas localizadas no sul de Israel— região onde persiste o trauma dos ataques sangrentos ocorridos há 7 de outubro de 2023. Embora não tenha sido encontrado nenhum vestígio explosivo nas peças recuperadas pela imprensa israelense, pelo menos uma delas carregava aparente mensagem política associada ao movimento palestino Hamas.

A pipa como ato cotidiano e resistência

Em meio à devastação do sistema educacional que já está ruínas por dois anos de guerra na área afetada, a brincadeira se torna um símbolo poderoso em Gaza. Yamen al Mubayyed, outro jovem deslocado também vindo de Deir al – Balah (onde o bairro foi arrasado), explica seu senso de liberdade através das pipas: “Não quero fazer mal a ninguém; só quero brincar como as crianças de qualquer lugar”.

“Aqui não há brinquedos nem parques de diversão”, conta ele aos repórteres. “Até uma bola de futebol para jogar é luxo demais”. Para os jovens moradores da região devastados pela guerra e que dependem do improviso — fabricando suas piadas com pedaços encontrados nas casas destruídas, papel, cordões e cola feita à base de farinha —, empinar pipa se tornou quase um ato coletivo.

O medo dos pais em proteger o direito ao jogo

Para muitos adultos na Faixa de Gaza, as pipas representam mais do que simples brincadeiras; elas são a manifestação visível da infância ameaçada. Akram Abu Shurkh relata aos repórteres como ele “vê a morte” nesses brinquedos por causa das constantes tensões militares no ambiente familiar.

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Por isso, proibiu os filhos de fazê – las voar mesmo temendo apagar completamente qualquer alegria nos olhos deles.

“São crianças e não entendem cálculos militares”, explica outro pai sobre essa preocupação parental: “para eles é apenas uma forma divertida ou um jeito natural para extravasar”.

O simples desejo pela normalidade

Apesar dos receios adultos em relação ao risco militar associado aos objetos que levam o céu a ser palco da guerra, há quem insista na importância do jogo como direito humano. Um Moaz Huwayla lamenta publicamente porque “ocupação quer aniquilar toda aquela alegria” inerente às corações das pessoas.

“Eles não pedem muito”, conclui ele sobre essa luta diária por dignidade e brincadeira: “só viver a infância; mesmo que seja com um pequeno barbante ou uma folha de papel”.