Pesquisadores desafiam a ideia de que telas causam miopia e revelam novo mecanismo visual

A pesquisa sugere que a miopia é um problema complexo ligado ao processamento neural do contraste, desafiando a visão simplista de que telas são a única causa.

A pesquisa sugere que ler com pouca luz pode ser mais prejudicial do que as telas em si

Pesquisadores da Faculdade de Optometria da Universidade Estadual de Nova York (SUNY) estão desafiando a ideia simples de que o uso de telas é a única causa da epidemia global de miopia. Em um artigo recente, eles propõem que o alto contraste dos estímulos próximos é o verdadeiro responsável pela constrição excessiva da pupila, reduzindo a luz que chega à retina e contribuindo para o distúrbio visual.

Quando focamos em objetos próximos, como celulares e tablets, ocorre um reflexo automático conhecido como “tríade de perto”, que envolve três respostas visomotoras: aumento da curvatura do cristalino (acomodação), convergência dos olhos e contração da pupila.

Até agora, pouco se sabia sobre as vias neurais que controlam essas respostas. O novo estudo revelou que duas vias ganglionares da retina, chamadas ON e OFF, são responsáveis por mediá – las.

Entendendo a Miopia

O artigo não apenas confirmou que ambas as vias contribuem para a acomodação, mas também mostrou que as células OFF são mais sensíveis em acionar esse mecanismo motor do que as células ON. Essa descoberta é significativa porque sugere que a miopia vai além de ser um mero problema óptico; ela representa um déficit sensoriomotor complexo entre o cérebro, a retina e os músculos oculares.

No caso dos míopes, uma falha no processamento neural do contraste ocorre devido à fraqueza na via ON, que capta objetos claros sobre fundos escuros. Essa deficiência faz com que o sistema visual dependa excessivamente da via OFF, resultando em imagens borradas e priorizando o escuro em detrimento da luz.

Esse fenômeno provoca uma constrição exagerada da pupila, diminuindo a quantidade de luz na retina e levando ao alongamento axial do olho, agravando assim a miopia.

Adicionalmente, os autores do estudo sugerem que a retina não atua apenas como um receptor passivo; ela também pode regular o crescimento ocular através de sinais químicos e elétricos. Com isso, o alongamento anormal do globo ocular afasta a retina do cristalino, piorando a condição visual.

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A Metodologia e Possíveis Tratamentos

Para analisar suas hipóteses, os pesquisadores compararam 13 indivíduos com visão normal a 21 míopes. Eles pediram aos participantes que fixassem um pequeno quadrado através de uma lente ajustável com desfoco de −5 dioptrias. A partir desse experimento, registraram vergência ocular e constrição pupilar para estudar as vias ON e OFF.

A primeira autora do artigo, Urusha Maharjan, esclareceu que quando as pessoas focam em objetos próximos em ambientes internos, a contração da pupila não se deve apenas ao brilho excessivo, mas sim para tornar a imagem mais nítida. Em situações de pouca iluminação, essa resposta pode reduzir consideravelmente a iluminação retiniana.

Os pesquisadores argumentam ainda que ambientes bem iluminados e atividades ao ar livre podem aumentar a luz na retina e diminuir a ativação constante da acomodação. Para tratar essa questão, gotas de atropina poderiam ser eficazes ao reduzir a contração excessiva da pupila durante esforços visuais próximos, permitindo assim uma maior entrada de luz na retina.

Ainda que reconheça que seus achados não oferecem uma resposta definitiva sobre o tema, Jose – Manuel Alonso, pesquisador sênior do estudo, afirma que este trabalho fornece uma hipótese testável sobre como hábitos visuais interagem com iluminação e foco ocular.

Isso abre novas possibilidades para prevenção e tratamento da miopia.