Pensamentos intrusivos durante a gravidez e pós-parto são comuns, mas podem indicar transtornos de ansiedade. Estudo revela a importância da comunicação e apoio profissional
Durante a gestação e nas semanas iniciais após o nascimento, é comum que as mulheres tenham pensamentos sobre o bebê, incluindo alguns que podem ser perturbadores. Imaginar acidentes, quedas ou até machucar o filho sem querer é mais frequente do que se imagina, embora raramente seja discutido com profissionais de saúde.
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Um estudo publicado na revista Science Advances revela que esses pensamentos indesejados, frequentemente relacionados a danos ao bebê, podem oferecer uma visão importante sobre os transtornos de ansiedade no período perinatal. Isso pode ajudar a identificar precocemente mulheres que estão mais suscetíveis a desenvolver depressão e ansiedade após o parto.
Essas ideias repentinas, conhecidas como pensamentos intrusivos, são caracterizadas por imagens ou impulsos vívidos que surgem de maneira abrupta e indesejada. No contexto da maternidade, podem manifestar-se como questionamentos como “e se o bebê cair?” ou “e se eu o sufocar sem querer?”.
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Segundo o ginecologista e obstetra Rômulo Negrini, esses pensamentos surgem “do nada” e são opostos aos desejos da mãe, causando desconforto intenso. Geralmente, não refletem um desejo real, mas sim medo e hipervigilância, diferenciando-se da preocupação normal da maternidade.
Estima-se que cerca de 80% das mulheres experimentem o chamado baby blues, um conjunto de sentimentos que pode ser confundido com depressão pós-parto. Esse fenômeno inclui choro, tristeza, angústia e irritabilidade, surgindo logo após o parto e durando de duas a três semanas.
Por outro lado, a depressão pós-parto não desaparece facilmente e pode afetar o vínculo entre mãe e bebê. Estudos indicam que entre 70% e 100% das mães relatam pensamentos intrusivos, e cerca de metade delas já teve ideias de dano intencional, embora sem ações concretas.
Muitas mães hesitam em compartilhar seus sentimentos por medo de serem julgadas. Por isso, é essencial que os profissionais de saúde abordem o tema de forma aberta e normalizadora. Ter pensamentos intrusivos não significa que a mãe seja perigosa; discutir esses sentimentos é um sinal de autoconsciência e proteção.
Fatores como oscilações hormonais, sono fragmentado e falta de apoio no pós-parto podem aumentar a sensibilidade emocional, especialmente em mulheres predispostas à ansiedade. A interação entre esses fatores pode favorecer a ocorrência de intrusões mentais.
É fundamental estar atenta aos sinais que indicam a necessidade de ajuda profissional. Deve-se procurar avaliação imediata se houver impulsos repetitivos, ideias de agir ou ansiedade intensa que comprometa o cuidado com o bebê. Nesses casos, a orientação é buscar atendimento em saúde mental.
O tratamento varia conforme a gravidade dos pensamentos. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma abordagem eficaz, especialmente adaptada ao contexto perinatal. Casos mais graves podem necessitar de medicamentos antidepressivos compatíveis com a amamentação, sempre sob supervisão psiquiátrica.
Para prevenir esses problemas, é ideal que as consultas de pré-natal incluam triagem para ansiedade e histórico de transtornos anteriores. Envolver o parceiro ou familiares no planejamento do suporte pós-parto é igualmente importante.
Cuidar da saúde mental da mãe é essencial para a saúde do bebê e de toda a família, enfatiza o médico Rômulo Negrini.
Autor(a):
Com formação em Jornalismo e especialização em Saúde Pública, Lara Campos é a voz por trás de matérias que descomplicam temas médicos e promovem o bem-estar. Ela colabora com especialistas para garantir informações confiáveis e práticas para os leitores.