Imagem chocante expõe crise habitacional em Salvador! Prédios abandonados no Pelourinho e moradores em situação de rua chocam Assembleia Legislativa. Crise humanitária denunciada por frei Lorrane Clementino e Casa Franciscana Maria Lúcia
Uma imagem simples, e profundamente incômoda, atravessou os corredores da Assembleia Legislativa de Bahia e expôs uma contradição estrutural que o poder público insiste em contornar: enquanto prédios inteiros apodrecem fechados no Centro Histórico de Salvador, cresce o número de pessoas que dormem nas calçadas.
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Na última sexta-feira (20), durante uma sessão especial sobre a Campanha da Fraternidade 2026, cujo lema é justamente “Fraternidade e Moradia – Ele Veio Morar Entre Nós”, o frei franciscano Lorrane Clementino rompeu o protocolo e levou consigo quem quase nunca entra nesses espaços: acompanhadas pela Casa Franciscana Maria Lúcia.
A proposição da sessão especial partiu do deputado Marcelino Galo (PT) e da deputada Maria del Carmen (PT).
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“Eu trouxe aqui Leila e Éric, que estão em situação de rua”, disse logo no início de sua fala. “Imagino que todos que estão aqui têm um lugar para encostar a cabeça e se sentir seguros.” O gesto não foi apenas simbólico — foi uma denúncia encarnada.
O escândalo dos vazios urbanos
Ao tomar a palavra, Lorrane fez questão de sair das generalidades e apontar o problema pelo nome e endereço: o Pelourinho. “São tantas casas, tantos prédios fechados, abandonados, que as pessoas preferem que eles caiam na cabeça de alguém”, destacou. “Enquanto, naquele mesmo lugar, existem inúmeras pessoas em situação de rua precisando de um lar.” A imagem é brutal — e real.
Ruas interditadas por risco de desabamento convivem com corpos deitados no chão. Imóveis vazios, sem função social, coexistem com vidas descartadas pela lógica urbana.
O Brasil, segundo a Fundação João Pinheiro, acumula um déficit habitacional superior a 6 milhões de moradias. Ao mesmo tempo, milhões de imóveis permanecem vazios ou subutilizados, evidenciando que o problema não é falta de espaço — é escolha política. “Não tem casa, não tem comida, não tem trabalho”, disse o frei.
A Campanha da Fraternidade 2026, centrada na moradia, aparece nesse contexto não como reflexão abstrata, mas como chamado à ação concreta. “Estamos aqui refletindo, mas precisamos sair daqui de mãos dadas e fazer um mutirão para colocar em prática o que a campanha propõe.”
Frei Lorrane também não poupou críticas à ausência de parlamentares na sessão. “Que pena que a gente não vê outros deputados aqui. Deveriam estar para conhecer de perto esse trabalho”, disse, em tom direto. Ao mesmo tempo, reforçou que há iniciativas populares e eclesiais já em curso — e abertas ao diálogo. “As portas da Igreja estão abertas para caminhar de mãos dadas e pensar possibilidades para beneficiar o nosso povo que não tem casa, não tem teto, não tem comida.”
Se dentro da Assembleia o gesto provocou reflexão, fora dela a reação revelou outra face da sociedade. Após publicar a imagem ao lado de Éric e Leila, Frei Lorrane passou a receber uma enxurrada de ataques nas redes sociais — muitos deles direcionados não a ele, mas às pessoas em situação de rua. “O que realmente me revolta não são os ataques contra mim”, ressaltou. “O que me incomoda profundamente são os ataques direcionados a Leila e a Éric.” Segundo o frei, os comentários expõem um traço persistente da sociedade brasileira: o desprezo pelos pobres. “As pessoas julgam pela aparência, pelo estereótipo, sem conhecer a história, sem saber o que enfrentam nas ruas”, disse. “Isso escancara algo muito sério: a aporofobia.” Ele foi categórico: “Isso não é opinião.
Isso é desumanização.”
Diante da violência, Frei Lorrane respondeu com firmeza — e posicionamento político. “Podem falar o que quiserem de mim. Eu aguento”, afirmou. “Mas não vou aceitar ataques gratuitos contra pessoas que já são invisibilizadas todos os dias.” O desabafo virou denúncia pública. “São pessoas que já têm sua dignidade negada pela sociedade.
E a gente precisa denunciar tudo isso.”
Ao defender Éric e Leila, o frei recoloca o debate no seu eixo central: não se trata apenas de moradia, mas de humanidade. Direito à cidade em disputa A cena levada à Assembleia — dois corpos historicamente excluídos ocupando o espaço institucional — expôs o que muitas vezes se tenta esconder: o direito à cidade segue sendo negado à maioria.
Enquanto a função social da propriedade permanece como letra morta na Constituição, a política urbana segue subordinada à especulação e ao abandono.
Autor(a):
Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.