Pelotas: Segredos Sombrios, Trabalho Escravo e o Silêncio da Memória

Pelotas: Segredos sombrios e a luta pela memória. Uma cidade marcada pela escravidão e pela exclusão racial. Descubra o legado complexo que persiste até hoje

Pelotas: Uma História de Trabalho, Escravidão e o Desafio da Memória

Localizada no sul do Rio Grande do Sul, Pelotas é uma cidade conhecida por sua rica tradição doceira e pela arquitetura que remete ao ciclo do charque. A cidade guarda, sob seus casarões históricos do centro, um legado complexo e, por vezes, doloroso.

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Em muitos prédios ao redor da Praça Coronel Pedro Osório, estruturas antigas de senzalas permanecem preservadas nos subterrâneos, um lembrete sombrio do passado. A praça central, hoje um dos principais cartões-postais do município, abrigou um pelourinho, local onde pessoas negras eram castigadas publicamente, evidenciando a brutalidade da exploração.

A Exploração e o Legado

A riqueza que Pelotas acumulou foi construída sobre a exploração da população escravizada nas charqueadas da região. O professor, historiador e jurista Fábio Gonçalves, que por quase uma década presidiu o Conselho da Comunidade Negra de Pelotas, descreve a cidade como um espaço que se ergueu sobre o trabalho, o sangue e o suor dos escravizados e seus descendentes, mas que, ao mesmo tempo, os marginalizava.

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Essa dinâmica persiste até os dias atuais, com o apagamento da história da população negra da memória da cidade.

A Contribuição da População Negra

A pró-reitora de Ações Afirmativas e Equidade da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Daiane Molet, destaca que a cidade foi construída não apenas com a força física, mas também com o conhecimento e a inteligência da população negra escravizada.

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Desde a construção das paredes até a produção intelectual e técnica, a contribuição negra foi fundamental. Essa realidade se reflete em elementos culturais como o tambor de sopapo, criado por escravizados nas charqueadas, que se tornou um símbolo da cultura negra pelotense.

Desafios e Reconhecimento

Apesar dos avanços recentes, como a criação da secretaria municipal de Igualdade Racial e a inauguração de um equipamento público para promover políticas públicas voltadas à população negra, o historiador Fábio Gonçalves ressalta que a representatividade por si só não garante transformações estruturais.

A presença negra em espaços institucionais deve ser acompanhada de ações concretas para combater a desigualdade e promover o reconhecimento da história e da cultura da população negra em Pelotas. O secretário municipal de Igualdade Racial de Pelotas, Júlio Domingues, enfatiza que a memória negra é parte integrante da história da cidade, desde o período das charqueadas até os quilombos e movimentos culturais que continuam vivos na cidade.

Terreiros e Memória

O presidente do Conselho Municipal do Povo de Terreiro de Pelotas, babalorixá Rodrigo Domingues, ressalta que os terreiros também desempenham um papel crucial na preservação da memória negra da cidade. Além da dimensão religiosa, esses espaços funcionam como territórios de resistência cultural e de transmissão de saberes ancestrais.

A valorização dos povos de terreiro e dos quilombos é, segundo ele, um passo essencial para construir uma narrativa mais justa e fiel à história de Pelotas.

As Rotas Negras e a reconstrução da memória afro-brasileira são importantes ferramentas para promover o conhecimento e o reconhecimento da contribuição da população negra na formação da cidade. O chafariz da Praça Coronel Pedro Osório, por exemplo, ocupa espaço onde, no passado, funcionava um pelourinho, um local de sofrimento e violência, mas também de resistência e luta por liberdade.