O Peso Invisível do Cuidado: Uma Análise da Distribuição de Tarefas Domésticas no Brasil
Em 2026, uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelou um retrato preocupante da divisão de tarefas domésticas no Brasil. Mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que homens para realizar essas atividades, um fardo que, embora não remunerado e socialmente invisível, representa um esforço anual de mais de mil horas.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Essa realidade, evidenciada por estudos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), impacta profundamente a vida de muitas brasileiras.
Cuidado Informal: Uma Responsabilidade Predominantemente Feminina
A pesquisa da PUCPR aponta que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres, sendo filhas, cônjuges ou netas. A maioria das cuidadoras tem idade média de 48 anos. Esse fenômeno se repete em todo o mundo, com mulheres e meninas frequentemente afetadas na vida profissional e nos estudos devido à sobrecarga de cuidados familiares.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
A pesquisadora Valquiria Elita Renk, do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da PUCPR, destaca que “uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim”.
Políticas Públicas e Reconhecimento do Trabalho de Cuidado
Em contraste com a situação no Brasil, alguns países já implementaram políticas de apoio aos cuidadores. Na Finlândia e Dinamarca, por exemplo, assistentes domésticos e de serviços são pagos pela municipalidade. Na França, Áustria, Alemanha e Holanda, há custeio a alguns serviços realizados por assistentes.
LEIA TAMBÉM!
O Reino Unido e a Irlanda oferecem compensação à pessoa que presta assistência a um familiar, enquanto a Espanha possui a Lei de Promoção da Autonomia Pessoal e Atenção às pessoas em situação de dependência, com compensação financeira para os cuidadores familiares.
O Brasil e o Futuro do Reconhecimento
Apesar do cenário internacional, o Brasil ainda está em um estágio inicial nesse aspecto. A Lei instituída no final de 2024, ainda em implementação, busca avançar nesse sentido. A pesquisadora Valquiria Renk defende que é crucial não apenas pagar pelo trabalho das mulheres, mas também reconhecer socialmente essa responsabilidade e oferecer uma compensação financeira para aliviar a sobrecarga.
Ela enfatiza que o cuidado com um filho ou idoso envolve uma relação afetiva complexa, que vai além da simples prestação de serviços.
A Importância do Cuidado para a Sociedade
O trabalho do cuidador é fundamental para o funcionamento da sociedade, mantendo a engrenagem em movimento. No entanto, essa responsabilidade é tão naturalizada que recai quase sempre sobre as mulheres, que fazem esse trabalho em silêncio e na privacidade de suas casas.
A pesquisa revela que as mulheres internalizam essa responsabilidade, incorporando-a à sua vida cotidiana. As donas de casa não deixam de ser também cuidadoras, pois cuidam para que seus filhos tenham saúde, sejam bem alimentados e que seus maridos tenham uma vida profissional organizada.
Conclusão: Um Chamado à Ação
A metodologia da pesquisa envolveu entrevistas com 18 mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e Santa Catarina, responsáveis pelo cuidado de familiares idosos, doentes ou com deficiência. As conclusões revelam que essas mulheres são adultas, dedicam o tempo do descanso e do lazer para cuidar do familiar e respondem “porque é minha obrigação”.
O estudo sinaliza que é preciso um esforço para educar meninas e meninos de que o trabalho doméstico deve ser igualmente dividido dentro das famílias, pois essa será a geração do futuro. A sobrecarga recai mais gravemente sobre a chamada “Geração Sanduíche”, que engloba mulheres que administram simultaneamente o trabalho formal, a gestão da casa e o cuidado com filhos, marido e idosos. “Onde essa mulher vai se ancorar?”, indagou a pesquisadora.
A pesquisa, com autoras Ana Silvia Juliatto Bordini e Sabrina P. Buziquia, destaca a necessidade de uma mudança cultural que reconheça o valor do trabalho de cuidado e promova a igualdade de gênero.
