Movimento indígena resiste à Cargill no Solimões! Justiça climática é silenciada pela mídia? Saiba mais.
A busca pela justiça climática exige que as comunidades mais vulneráveis assumam o controle da narrativa e da criação de soluções. Essa transformação começa, fundamentalmente, com a comunicação. A experiência de muitos ativistas, como a minha, revela uma barreira constante: a dificuldade em estabelecer um diálogo aberto sobre o colapso ambiental, mesmo diante das evidências dos impactos das mudanças climáticas.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
A forma como a sociedade compreende a crise climática está intrinsecamente ligada à produção e à circulação da informação. Não se trata apenas de um debate público qualificado, mas de garantir a pluralidade de vozes, especialmente diante de disputas de interpretação sobre o que está em jogo para o clima, o território e o futuro coletivo. É inaceitável que interesses econômicos e políticos dominem o debate, moldando a agenda de acordo com seus próprios objetivos.
Um exemplo recente ilustra essa dinâmica: a luta do movimento indígena contra a privatização de hidrovias no rio Solimões, liderada pela Cargill em Santarém (PA). A resistência, que culminou em protestos e bloqueios, foi desconsiderada pela mídia tradicional, que a rotulou de “baderna”, “invasão” e “chantagem”.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e outras entidades apontaram que os textos jornalísticos ignoravam os argumentos dos povos indígenas, reforçando a ideia de que a defesa dos territórios é “radicalismo” e que os indígenas são inimigos do “progresso”.
Essa cobertura limitada não é um evento isolado. A mídia hegemônica enfrenta, há muito tempo, limitações estruturais, dependendo economicamente de setores como petróleo, mineração e outros grandes poluidores. Essa dependência influencia a cobertura, tornando-a superficial, parcial e insuficiente para promover um debate crítico sobre a crise climática.
Estudos apontam que a mídia tende a suavizar conflitos ambientais, priorizando soluções de baixo impacto e evitando questionar a estrutura econômica que sustenta a crise.
Além da mídia tradicional, os algoritmos das grandes plataformas de tecnologia (Big Tech) amplificam conteúdos com alto potencial de engajamento, criando um ambiente propício à propagação do negacionismo e da desinformação. Essa dinâmica, aliada à falta de regulação econômica, permite a circulação de campanhas de desinformação patrocinadas por setores econômicos sem transparência.
No ambiente digital, o Brasil se destaca como um dos países mais perigosos para defensores de direitos, que enfrentam assédio sistemático nas redes sociais, com 92% das pessoas entrevistadas relatando ataques ou assédio online.
A pesquisa da Global Witness revela que a violência online contribui para a violência offline, com 75% das vítimas relatando que os ataques virtuais influenciaram episódios de violência física. Diante desse cenário, fortalecer o direito à comunicação se torna estratégico para enfrentar a crise climática, exigindo políticas públicas de democratização dos meios de comunicação, regulação democrática das plataformas digitais e investimento em educação midiática, com foco na garantia de direitos.
A justiça climática só será alcançada se os grupos mais afetados tiverem protagonismo na criação de soluções e alternativas, garantindo que o futuro não caia sobre nós.
Autor(a):
Com formação em Jornalismo e especialização em Saúde Pública, Lara Campos é a voz por trás de matérias que descomplicam temas médicos e promovem o bem-estar. Ela colabora com especialistas para garantir informações confiáveis e práticas para os leitores.