Em um momento crucial, com a proximidade do 62º aniversário do Golpe Militar, uma operação de grande importância foi realizada no centro do Rio de Janeiro. Cerca de 300 caixas de documentos, cuidadosamente organizados e higienizados, foram removidas do antigo prédio, um local que guardava segredos do período.
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A ação, concluída na segunda-feira (30), contou com o apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
A iniciativa foi resultado de uma complexa articulação entre diversos grupos da sociedade civil, o Ministério Público Federal (MPF) e o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Pedretti, integrante do Coletivo RJ Memória, Verdade, Justiça, Reparação e Democracia, destacou que o acervo inclui informações valiosas sobre a estrutura da polícia, a organização interna, fichas de agentes e a movimentação de pessoal.
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Essa documentação, segundo ele, é fundamental para desmistificar a ideia de que o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) era uma entidade isolada da polícia tradicional.
Pedretti enfatizou que a violência contra opositores do regime estava intrinsecamente ligada à violência nas favelas e periferias, com forte recorte racial. O acervo também revela detalhes sobre o Serviço de Censura de Diversões Públicas, com registros de autorizações e proibições para eventos culturais. “Não se tratava apenas de censurar grandes artistas, mas também de exigir autorizações para associações culturais, o que revela o cotidiano da censura”, explicou.
A pressão por acesso a esses arquivos é antiga, remontando aos anos 80 e 90 após o fim da ditadura. Documentos foram recolhidos ao Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, mas muitos permaneceram intocados. A Comissão da Verdade do Rio de Janeiro, atuando entre 2013 e 2014, identificou salas repletas de documentos em condições precárias, abandonados e em deterioração.
Apesar disso, a comissão não conseguiu resgatar toda a documentação na época.
Em 2023, uma nova visita ao prédio, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e movimentos sociais, motivou o MPF a instaurar um inquérito. Uma mesa de negociação, mediada pelo procurador , do MPF, foi criada, resultando na formação de um grupo de trabalho responsável por triar e pré-higienizar os documentos. A partir de 2025, com o apoio do Arquivo Público do Estado e do Iphan, voluntários – incluindo estudantes de arquivologia e história – passaram a realizar essa tarefa, um esforço que se estendeu até o início de 2026.
Autor(a):
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.
