O Brasil continua a lidar com um processo político complexo, enraizado desde a fundação da República: a presença contínua de militares em posições de poder. Quarenta anos após o fim do regime autoritário, indivíduos e seus familiares, que desempenharam papéis cruciais durante a ditadura, ainda ocupam cargos de destaque em diversas esferas do governo, frequentemente após o período de repressão.
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Um exemplo notório é o de José Sarney, que iniciou sua trajetória política como líder da Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido que sustentou o regime militar, e posteriormente se tornou presidente do Brasil. No entanto, a influência se estende além de figuras centrais, com familiares de políticos da época e até mesmo de indivíduos envolvidos em atos de tortura consolidando sua presença na política brasileira.
Eduardo Tuma, sobrinho do diretor-geral do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Romeu Tuma, ilustra essa dinâmica, ocupando uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo com foco na valorização da Polícia Militar.
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Outro caso emblemático é o de Aguinaldo Ribeiro, cuja ascendência remonta a um latifundiário paraibano acusado de participar do assassinato de militantes da reforma agrária em 1962. O ataque, perpetrado por donos de terra, resultou na morte de guerrilheiros e gerou graves consequências.
Posteriormente, o indivíduo se tornou um deputado federal e, mais tarde, prefeito de Curionópolis, uma cidade que recebeu seu nome em homenagem ao evento.
A persistência da influência militar na política brasileira é evidenciada pela trajetória da família Etchegoyen, que teve um papel significativo no governo de Getúlio Vargas e, posteriormente, no golpe de 1964. Leo Guedes, um dos membros da família, foi assessor do presidente Emílio Garrastazu Médici, enquanto Cyro continuou a trabalhar com o general Milton Tavares, chefe do Centro de Informações do Exército.
O neto, Sérgio, foi nomeado ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da presidência por Michel Temer, demonstrando a continuidade dessa tradição.
O aumento da presença de militares no governo federal tem sido observado ao longo das últimas décadas, com um notável incremento durante o mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Dados do Ministério da Economia revelam que, em 2010, havia 1.421 militares em postos-chave, um número que subiu para 1.925 sob o governo de Michel Temer.
Jair Bolsonaro ampliou ainda mais essa tendência, nomeando 10 ministros militares e estendendo a participação de pessoas ligadas às Forças Armadas a diversos ministérios, incluindo Saúde, Educação e Economia.
Essa expansão da influência militar na política brasileira reflete um discurso que ganhou força nas últimas décadas, defendendo a manutenção do regime militar como um modelo político e a importância da segurança pública como instrumento de controle social.
A ascensão da extrema direita no Brasil e no mundo contribuiu para a reemergência desse discurso, que muitas vezes ignora as violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura.
A exclusão de militares e familiares ligados à ditadura também levanta questões sobre a responsabilidade do Estado brasileiro e a necessidade de depuração institucional. A falta de mecanismos eficazes para punir os responsáveis por crimes cometidos durante o regime autoritário legitima a continuidade de figuras que desempenharam papéis na repressão e violação de direitos humanos.
A Comissão Nacional da Verdade destacou essa questão como um dos sintomas mais importantes da transição incompleta, que permite a permanência de indivíduos com valores e projetos políticos ligados ao período ditatorial.
Autor(a):
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.
