Mercado de petróleo resiste à guerra entre EUA e Irã, mas analistas temem colapso

Analistas do JPMorgan apontam três fatores que seguram os preços, mas risco de colapso nos estoques globais preocupa.

Imagem de satélite mostra terminal de petróleo na Ilha de Kharg, no Irã, em 25 de fevereiro de 2026

A guerra entre Estados Unidos e Irã já dura mais de seis meses, e o mercado global de petróleo, contra todas as expectativas, continua funcionando. O petróleo bruto está chegando aos seus destinos, na maior parte das vezes, graças a rotas alternativas e ao uso de estoques estratégicos.

A pergunta que agora ronda analistas e governos é: por quanto tempo essa calma aparente vai se sustentar?

Enquanto alguns especialistas acreditam que o mercado já encontrou um novo equilíbrio, outros temem que os improvisos usados para manter o fluxo de petróleo estejam perto do limite. O risco de um colapso nos estoques globais, levando os preços a dispararem e forçando os EUA a recuarem, ainda é real.

Os três pilares que seguram o mercado

De acordo com um relatório da analista – chefe de commodities do JPMorgan, Natasha Kaneva, três fatores principais explicam por que os preços do petróleo não atingiram máximas históricas, apesar do maior choque de oferta já registrado. O primeiro é a capacidade de contornar o Estreito de Ormuz.

Uma operação de transporte encoberta, com escolta dos militares dos EUA e coordenação com estados do Golfo, desvia milhões de barris por dia para portos fora do alcance do Irã. “Os barris encontram um jeito de fluir”, disse Kaneva. A produção combinada de Estados Unidos, Venezuela, Brasil, Guiana e Canadá também cresceu em cerca de 2 milhões de barris por dia.

O segundo pilar é a preservação dos estoques. Diferente do esperado, a maioria dos países, fora EUA e China, reduziu suas reservas de petróleo muito menos do que o previsto. Isso criou uma espécie de colchão que os governos podem usar em caso de agravamento do conflito.

O terceiro fator é a queda na demanda global, que encolheu cerca de 5 milhões de barris por dia durante a guerra. Consumidores cancelaram viagens, migraram para carros elétricos ou passaram a usar transporte público, enquanto empresas adotaram o home office.

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A escassez de capacidade de refino no Oriente Médio, na Rússia e na China também ajudou a segurar os preços.

O que pode fazer o petróleo disparar

Apesar do equilíbrio atual, a estrutura montada é frágil. Os Estados Unidos e a China têm usado pesadamente seus estoques estratégicos para amortecer o impacto da guerra. Em Cushing, Oklahoma, uma instalação de armazenamento chegou ao seu nível operacional mínimo em julho, quando a física impede que as empresas bombeiem petróleo bruto com facilidade pelos dutos.

As reservas se recuperaram ligeiramente desde então, mas o alerta permanece.

A China, por sua vez, aumentou as importações de petróleo gradualmente, mas elas ainda estão milhões de barris abaixo do nível pré – guerra. Acredita – se que o país tenha cerca de um bilhão de barris estocados, mas ninguém fora do governo chinês sabe o número exato.

Para Hamad Hussain, economista de commodities da Capital Economics, esses estoques vão se esgotar se a guerra se prolongar. “Isso faria com que a oferta e a demanda entrassem em um desequilíbrio extremo, potencialmente elevando os preços do petróleo a patamares muito mais altos”, disse.

Dan Pickering, da Pickering Energy Partners, acredita que a queda dos estoques não causará um aumento imediato, mas tornará os preços muito mais voláteis. “Provavelmente no final do próximo ano, se o status quo se mantiver”, afirmou. Ele lembra que não há tempo para construir novos dutos ou para que novas fontes, como a Venezuela, compensem a perda de oferta para sempre.

A sustentabilidade militar e o novo normal

Helima Croft, da RBC Capital Markets e ex – analista da CIA, destaca que o esforço militar dos EUA não é infinito. “Não é a mão invisível do mercado. É o exército encontrando um caminho”, disse. “Estaremos para sempre no serviço de escolta? Isso é um esforço pesado.

São alternativas custosas.” Croft vê o conflito preso em uma “zona cinzenta”, com focos de escalada e períodos de calma tensa, e alerta para o risco de um ataque como o de drones de 2019 a um campo petrolífero saudita, que fez o petróleo disparar.

A US Energy Information Administration concluiu que as exportações pelo Estreito de Ormuz permanecerão “restritas” pelo resto do ano. A SP Global Energy foi além: não espera mais que a produção de petróleo do Oriente Médio retorne aos níveis pré – guerra nem mesmo até o final de 2027. “O mercado não está voltando à calma”, disse Jim Burkhard, da SP. “Ele está se ajustando ao novo normal definido por conflito não resolvido e risco marítimo persistente.”