Memórias Têxtil Resgatadas Após Desafios
Após um período crítico, marcado pela enchente de maio de 2024 em Porto Alegre, a memória coletiva construída pelo projeto “Tapete Voa-Dor” volta a estar disponível ao público. O lançamento do catálogo da iniciativa acontecerá na quinta-feira, 5 de março, às 10h, no Museu Estadual Oficina de Criatividade, localizado no Hospital Psiquiátrico São Pedro.
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A publicação representa a conclusão do trabalho de recuperação do acervo, que sofreu danos significativos devido às fortes chuvas.
Evento de Lançamento
O evento é gratuito e aberto a todos. Os presentes receberão uma cópia impressa do catálogo. Após a apresentação, haverá uma sessão de autógrafos e a oportunidade de visitar a exposição das obras, que permanecerá aberta até 31 de março, mediante agendamento prévio por e-mail.
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A exposição também estará disponível gratuitamente para visitação.
Projeto de Resgate
O projeto foi contemplado pelo Edital de Memória e Patrimônio da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul, por meio da Política Nacional Aldir Blanc. O financiamento faz parte das ações de fomento cultural implementadas após a regulamentação da política federal de apoio ao setor cultural.
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O resgate envolveu a higienização, catalogação e digitalização de 105 peças têxteis produzidas entre 2006 e 2007 por frequentadores da Oficina de Criatividade do hospital.
As Peças Salvas
Vinte dessas obras estavam expostas no prédio da Superintendência Estadual do Ministério da Saúde, no Centro Histórico da Capital, quando foram atingidas pela enchente. As peças permaneceram por semanas em meio à lama e à umidade, algumas submersas.
A equipe responsável conseguiu evitar perdas irreversíveis, graças à forma como os trabalhos estavam afixados. O resgate foi realizado por integrantes do museu, com apoio da Associação Amigos da Memória do Hospital Psiquiátrico São Pedro.
Restauração e Profissionais
O processo de restauro contou com profissionais especializados, que também atuaram na recuperação de obras depredadas durante os ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. O tratamento técnico buscou preservar não apenas a integridade física das peças, mas também sua dimensão simbólica, relacionada às histórias pessoais inscritas nos bordados.
A iniciativa é um testemunho da importância da arte na saúde mental.
O Tapete Voa-Dor: Um Projeto Emblemático
O Tapete Voa-Dor é considerado um dos projetos mais emblemáticos surgidos na Oficina de Criatividade. A proposta reunia moradores do então hospital psiquiátrico, usuários do ambulatório, funcionários, estagiários e voluntários em encontros semanais de bordado em tapeçaria de recorte.
A experiência resultou em mais de uma centena de peças individuais, que na primeira exposição, em 2007, foram penduradas em varais no pátio em frente ao prédio histórico do hospital, criando instalações aéreas que deram origem ao nome do projeto.
Desde então, o conjunto já circulou por escolas, unidades de saúde, centros culturais e universidades, em diferentes cidades do Rio Grande do Sul, além de São Paulo e Amazonas. Em 2012, o trabalho foi reconhecido pelo Secretaria Municipal de Cultura como uma das práticas mais significativas no campo da saúde mental.
A Oficina e Sua Transformação
A Oficina atua como espaço de reabilitação psicossocial vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS). Inspirada em experiências pioneiras no uso da arte no cuidado em saúde mental, a iniciativa foi concebida como ambiente de convivência e respeito às diferenças.
Inicialmente voltada a moradores do hospital, ampliou seu público ao longo dos anos, acompanhando o processo de desinstitucionalização. Atualmente, não há mais moradores permanentes na instituição. A Oficina recebe semanalmente entre 60 e 70 frequentadores, entre crianças, adolescentes e adultos, com média mensal de até 1,3 mil atendimentos em atividades como música, teatro, pintura, argila, bordado, escrita e dança.
O Hospital Psiquiátrico São Pedro, fundado em 1884, atravessou um longo processo de transformação. Símbolo histórico do modelo manicomial, o complexo ocupa uma área de 14 hectares e possui prédio tombado pelo patrimônio estadual e municipal. Em 2025, concluiu formalmente o processo de desinstitucionalização, com a saída do último morador, encerrando um ciclo iniciado ainda na década de 1970 e intensificado nas décadas seguintes.
Hoje, a instituição mantém internações breves para casos agudos, além de serviços ambulatoriais e de reabilitação.
Preservação e Memória
O projeto “As Memórias de um Tapete Voa-Dor” foi contemplado pelo Edital Sedac nº 31/2024, vinculado à Política Nacional Aldir Blanc. A política federal prevê repasses diretos a estados e municípios para financiamento de ações culturais, incluindo preservação de patrimônio e memória.
Para a Secretaria de Estado da Cultura, o edital busca fortalecer iniciativas que atuam na salvaguarda de acervos atingidos por situações de risco. Já a equipe do museu afirma que o apoio foi determinante para garantir condições técnicas adequadas de restauro e digitalização.
O catálogo lançado agora possui 88 páginas e apresenta as 105 peças em montagem que remete à disposição original em varais. A publicação reúne textos assinados por pesquisadoras e profissionais ligadas ao campo da contextualizando o projeto em suas dimensões histórica, estética e institucional.
