A profissional de marketing Mariana Ruiz, de 42 anos, é diabética e percebe que algo não está certo quando sua cachorra Granola toca seu pé ao detectar elevações súbitas de glicose no sangue. A golden retriever também bate no joelho da tutora ao notar quedas de glicose.
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Essas elevações, conhecidas como hiperglicemia, podem causar mal-estar, enquanto quedas rápidas, ou hipoglicemia, podem levar à confusão, desmaio ou convulsão se não houver intervenção. O toque de Granola pode antecipar uma crise, proporcionando tempo para buscar ajuda.
Mariana nasceu com diabetes tipo 1 e apresenta baixa visão devido à síndrome de Wolfram, uma doença neurodegenerativa genética rara que se caracteriza por diabetes mellitus juvenil. Para auxiliar em sua rotina, ela contratou um adestrador para que Granola, desde filhote, desempenhasse as funções de cão-guia e cão de alerta médico, capaz de identificar oscilações de glicose e avisar sua tutora. “Ela me ajuda a identificar quando minha glicemia está alta ou baixa”, afirma Mariana.
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O treinador de cães de alerta médico, Glauco Lima, de 47 anos, explica que o trabalho com cães como Granola se baseia na capacidade olfativa canina de detectar compostos voláteis liberados no suor e na respiração durante as oscilações de glicose.
A médica Vanessa Montanari, especialista em endocrinologia pela Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, destaca que essa técnica possui base científica, mas deve ser vista como um complemento ao tratamento médico. Glauco reforça que cães bem treinados podem detectar alterações no odor associadas a picos ou quedas de glicose, mas isso não substitui a medição com glicosímetro ou o acompanhamento regular com um endocrinologista.
O treinamento começa com a coleta de amostras reais de saliva e suor em momentos de hipoglicemia e hiperglicemia. Essas amostras são preservadas em temperaturas controladas para manter as características químicas necessárias para o aprendizado do cão.
O método utiliza reforço positivo, onde o cão associa o odor alvo a uma recompensa, exibindo comportamentos de alerta, como bater com a pata ou latir. O treino avança para situações reais com distrações e ambientes variados, já que a hipoglicemia noturna é considerada uma das situações mais perigosas.
Glauco afirma que, em alguns casos, o animal pode antecipar a crise entre 20 e 30 minutos antes do surgimento de sintomas clínicos, permitindo que a pessoa se alimente ou busque ajuda. A endocrinologista Vanessa, membro do departamento de tecnologia e inovação em diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes, ressalta que o uso desses cães deve fazer parte de um plano de cuidado validado pelo médico. “O cão é um complemento útil para antecipar crises, mas o paciente precisa confirmar qualquer alerta com leitura de glicemia e manter consultas regulares com o endocrinologista”, afirma.
Os cães de alerta médico oferecem diversos benefícios, como a antecipação de crises, cobertura em caso de falhas de equipamentos, segurança em situações de risco e suporte emocional, aumentando a independência do paciente e de sua família. Glauco descreve critérios técnicos para o treinamento, que incluem teste de temperamento em filhotes e avaliação do bem-estar animal.
O tempo médio para treinar um cão para essa função varia de um ano e meio a dois anos, podendo ser reduzido se o animal já tiver uma base de obediência.
Para ter um cão de alerta, é importante seguir algumas etapas. Primeiro, a seleção do cão deve ser feita com o apoio de um bom criador. Em seguida, é fundamental explicar à família as etapas do processo. O treinamento deve incluir socialização, trabalho básico, treino com marcadores biológicos em parceria com sensores e prática em diversos ambientes, como casa, escola e transporte público.
O objetivo é proporcionar autonomia e funcionalidade à pessoa assistida.
O treinamento geralmente leva cerca de dois anos, seguido de treinos de manutenção. É importante ressaltar que, no Brasil, ainda não existe uma legislação específica para a utilização de cães de alerta médico, o que se deve à falta de conhecimento e à ausência dessa prática na cultura local.
Autor(a):
Ex-jogador de futebol profissional, Pedro Santana trocou os campos pela redação. Hoje, ele escreve análises detalhadas e bastidores de esportes, com um olhar único de quem já viveu o outro lado. Seus textos envolvem os leitores e criam discussões apaixonadas entre fãs.
