Manifestação em Brasília denuncia abandono da saúde mental no DF

Manifestação em frente ao Palácio do Buriti denuncia abandono da saúde mental no DF! Usuários e familiares cobram fim das práticas manicômio e investimentos na

Manifestação em Frente ao Palácio do Buriti Denuncia Abandono da Saúde Mental no Distrito Federal

Em um ato de resistência e denúncia, usuários, familiares, profissionais de saúde e movimentos sociais se reuniram nesta segunda-feira (18) em frente ao Palácio do Buriti, sede do Governo do Distrito Federal (GDF). A mobilização, impulsionada pelas palavras de ordem “manicômio nunca mais” e “trancar não é cuidar”, visava expor o que consideram ser um grave abandono da política de saúde mental na capital.

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O gramado da sede do GDF se transformou em um espaço de cultura, arte e, acima de tudo, de luta por um cuidado mais humano e digno.

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A manifestação criticou o avanço de práticas que remetem aos antigos manicômios, o desfinanciamento da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e a falta de investimentos em serviços substitutivos, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). O manifesto do Fórum Revolucionário Antimanicomial do DF, que será lido em sessão solene na Câmara Legislativa, aponta que a lógica manicomial persiste em diversas formas de violência social, desde o racismo estrutural até a criminalização da pobreza. “O manicômio contemporâneo não se limita aos hospitais psiquiátricos, mas se manifesta na gestão privada da pobreza, no racismo e na transformação do sofrimento social em ferramenta de controle”, ressaltou o documento.

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Um dos principais pontos de crítica foi a situação precária da Raps no Distrito Federal. Integrantes do movimento denunciaram que o DF possui uma das piores coberturas de Caps do país, o que inviabiliza o atendimento de milhares de pessoas. A assistente social Karina Figueiredo, integrante do Pró-Saúde Mental do DF e do Fórum Revolucionário Antimanicomial, destacou a ausência de investimentos nos últimos anos, mencionando uma ação civil pública do Ministério Público que exige a ampliação dos serviços desde 2010, sem que essa demanda tenha sido atendida.

A precarização das equipes também foi alvo de denúncias, com relatos de sobrecarga e falta de profissionais em unidades da rede pública.

Impacto da Precarização

A assistente social Carla Fernanda Silva, da UBS 12 de Ceilândia, relatou que a falta de equipamentos públicos em regiões periféricas obriga os usuários a longos deslocamentos para conseguir atendimento. “A saúde mental não se trata apenas de remédio.

Trata-se de arte, cultura, investimento e políticas públicas que garantam o acesso ao cuidado em liberdade”, afirmou. A situação é ainda mais crítica em Ceilândia, onde não existem Caps especializados para transtornos mentais ou infantis, sendo o Caps mais próximo localizado em Taguatinga, exigindo deslocamentos longos e, muitas vezes, sem recursos financeiros para os pacientes.

Vozes da Luta

Entre os participantes estavam usuários da própria rede de saúde mental, como Talita Barros, usuária do Caps AD III de Ceilândia, que enfatizou a importância de lutar pela sua dignidade e respeito. “Essa parte manicomial tem que acabar totalmente, porque a gente tem que ter respeito e dignidade”, declarou.

Talita também ressaltou a necessidade de ampliar os espaços públicos de acolhimento, lembrando que qualquer pessoa pode enfrentar sofrimento mental ao longo da vida. “Precisamos de mais Caps, de mais espaços para sermos tratados em liberdade, porque nós não somos nenhum bicho.

Somos seres humanos como qualquer outra pessoa. A linha entre a sanidade e a loucura é muito tênue”, afirmou.

Apoio Político e Relevância Social

Familiares de usuários também participaram do ato, relatando o sentimento de abandono diante da falta de suporte público adequado. Margarida Carvalho, mãe de uma jovem com transtorno afetivo bipolar (TAB), expressou a necessidade de apoio e acolhimento para as famílias que convivem com o sofrimento mental. “Precisamos de muito apoio, muito acolhimento e muita ajuda.

Eu sou mãe de uma filha linda e maravilhosa, mas portadora de TAB, e ainda me sinto órfã do sistema. Falta orientação, falta acolhimento e falta apoio para as famílias que convivem diariamente com o sofrimento mental”, relatou.

Deputados distritais Fábio Felix (Psol-DF) e Erika Kokay (PT-DF) também estiveram presentes, reforçando a importância da luta antimanicomial na defesa da democracia e do cuidado à liberdade. A parlamentar Erika Kokay criticou a mercantilização da saúde mental e a permanência de práticas manicomiais em estruturas consideradas incompatíveis com o cuidado em liberdade.

Desafios e Perspectivas

Outro ponto levantado durante a mobilização foi a situação do Serviço de Observação e Acolhimento (SOA), que corre o risco de ser transferido para uma área isolada no Setor de Abastecimento e Armazenamento Norte (Saan). Usuários e trabalhadores denunciaram닮, o que dificultaria o acesso da população mais vulnerável.

Para o professor de psicologia da UnB, Pedro Costa, os manicômios reproduzem estruturas históricas de violência e exclusão social sob uma falsa aparência de cuidado. “O manicômio é uma expressão das violências mais agudas dessa sociedade”, afirmou.

Ao longo da manifestação, trabalhadores, usuários e movimentos sociais criticaram a política de saúde mental do Governo do Distrito Federal (GDF) e o desfinanciamento da Raps, afirmando que o governo tem priorizado modelos privados e segregadores em vez do fortalecimento do SUS e do cuidado em liberdade.

O manifesto, que será lido em sessão solene na Câmara Legislativa, chama a atenção para a necessidade de garantir o financiamento da Raps e o fortalecimento do cuidado em liberdade, como forma de combater a precarização da saúde mental no Distrito Federal.