Desafios e Reflexões em Tempos de Crise na Venezuela
A urgência da situação na Venezuela emerge das nossas preocupações com o presente e o futuro do país, agravada pelo recente ataque dos Estados Unidos. Essa realidade particular, intrinsecamente ligada a um processo histórico próprio, reflete desafios que permeiam toda a América Latina, especialmente a questão de como construir alternativas pós-capitalistas em um contexto histórico tão complexo.
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Modelos de Resistência e a China como Referência
O analista Diego Ruzzarin levanta uma questão crucial: os modelos de resistência socialista do século XX esgotaram suas possibilidades? A busca por inspiração em outras realidades, como a experiência chinesa, se torna fundamental. O exemplo do “Rumo à Estação Finlândia”, o Tratado de Brest-Litovsk, a Nova Política Econômica (NEP) de Lenin e as negociações de Vietnã com os EUA, ilustram a necessidade de adaptação e pragmatismo na preservação do poder, permitindo atender às demandas populares quando as condições o permitam. Essa abordagem, embora controversa, demonstra a importância de flexibilidade e discernimento.
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A Urgência de uma Autocrítica Profunda
O brutal desequilíbrio tecnológico e militar da situação na Venezuela, apesar das comparações, exige uma reflexão profunda. É imperativo abandonar a ilusão de que podemos enfrentar este desafio com as práticas desgastadas. A eleição de Edmundo González em 2024, com cerca de 40% dos votos, demonstra a força da extrema direita e a necessidade de uma “autocorreção”, como propôs o General Padrino López. Essa introspecção deve levar a novas formas de resistência, buscando resultados concretos para o povo.
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Reinventando a Resistência Bolivariana
A trajetória do presidente Maduro, com suas declarações complexas e difíceis de compreender, exige cautela. A busca por preservar o poder bolivariano deve ser acompanhada de clareza e direção. A falta de instruções claras pode levar a uma dependência excessiva do presidente, transformando-o em um “timoneiro infalível”. É crucial evitar a passividade e confiar na capacidade do povo de construir um futuro melhor.
Novas Estratégias para Enfrentar a Guerra Cognitiva
O analista venezuelano Oscar Schemel adverte sobre o perigo de um Donald Trump convertido em líder protetor, salvador e portador de bem-estar com autoridade simbólica. Diante da dificuldade de enfrentar a “guerra cognitiva”, é necessário implementar novas maneiras de resistir, garantindo que as melhorias na vida do povo sejam vistas como conquistas da resistência bolivariana e não dos agressores. A disputa pela verdade, impulsionada pelo uso de ferramentas como celulares, deve ser acompanhada de uma revolução nas práticas.
Reconstruindo a Sociedade com Qualidade e Inclusão
Schemel enfatiza a necessidade de uma “renovada superestrutura cultural e emocional”. É preciso ações que emocionem o povo, deixando de lado discursos sem resultados. O setor da população chamado “nini” – aqueles que não se identificam totalmente com o chavismo nem com a oposição – representa um segmento pragmático que busca resultados concretos. Para conquistar esse grupo, é fundamental mostrar que as mudanças propostas melhoram sua vida.
Metas e Ações para o Futuro
Para enfrentar os desafios, propõe-se uma série de ações em diversas áreas: saúde, com intervenções e reestruturação total, buscando padrões de excelência como o Estádio Monumental Simón Bolívar; poder popular, através de consultas trimestrais e projetos locais; terceira idade, com aumento de pensões e aposentadorias; trabalho, com a implementação da lei de 40 horas semanais e a redução da jornada laboral; educação, com reengenharia pedagógica e investimento em escolas; universidades, com a dotação de recursos e a promoção de uma nova identidade real, inspirada na experiência da China.
Aprendendo com a Experiência Chinesa
A experiência da China, que prioriza a qualidade e a eficiência na produção, pode servir de inspiração. É necessário que a qualidade e a eficiência se espalhem por toda a sociedade, criando um novo senso comum civilizatório, com ênfase na ordem, limpeza, beleza e ecologia. A “Feita na Venezuela e no Brasil” deve alcançar a excelência, aprendendo com a humildade de culturas milenares, como a de Xi Jinping.
*Anisio Pires é sociólogo venezuelano (Ufrgs/Brasil), professor da Universidade Bolivariana da Venezuela (UBV). Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.
