O Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, foi o palco de um ato nacional nesta terça-feira (31), reunindo diversos movimentos – populares, sindicais, negros e estudantis – em defesa das cotas raciais nas universidades. O evento, que teve início por volta das 14h, contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro da Educação, Camilo Santana, e marcou 21 anos do Programa Universidade para Todos (Prouni), 14 anos da Lei de Cotas Raciais e uma década da conclusão das primeiras turmas de estudantes que ingressaram nas universidades por meio dessa política.
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A iniciativa visava fortalecer a política de ações afirmativas, que tem impulsionado o acesso de estudantes negros e indígenas ao ensino superior. Dados do Ministério da Educação (MEC) revelaram que, de 2024 a 2026, quase 95 mil estudantes cotistas ingressaram na educação superior, um marco significativo em um cenário ainda marcado por desigualdades raciais no acesso ao ensino superior.
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A jovem Ane Carine Oliveira dos Santos, representante da União da Juventude Socialista (UJS) do Pará, destacou a importância da participação de estudantes de regiões como o Norte e Nordeste no ato. “Nós estamos aqui para mais orçamento, principalmente para o Norte e Nordeste.
Nós estamos aqui também para falar que a juventude, sim, tem responsabilidade e competência para estar na educação”, afirmou. Ane Carine ressaltou que as regiões enfrentam um movimento de privatização da educação universitária, muitas vezes acompanhado de desvalorização, e que a luta é pela melhoria e permanência estudantil nas universidades públicas.
Segundo ela, a cota é fundamental para garantir que estudantes das mesmas condições materiais possam competir entre si, buscando oportunidades de acesso à educação superior.
Melquizedeque Ramos da Silva, que ingressou no curso de direito por meio do Prouni e se formou em 2013, compartilhou sua experiência como cotista e prounista. “Sou advogado, cotista e prounista. Naquela época em que ingressei na universidade, as universidades públicas eram contrárias ao resultado da prova do Enem.
Muitos também eram contra as cotas. Eu, como beneficiário das cotas e produto do Enem, sou a demonstração de que esse pensamento de que as cotas não devem permanecer está completamente errado”, declarou.
Hoje, Melquizedeque luta para que mais pessoas negras tenham oportunidades como a dele, atuando em cursinhos pré-vestibulares no Rio de Janeiro, onde muitos alunos são pobres e vivem em favelas ou regiões vulnerabilizadas.
O Sistema de Seleção Unificada (Sisu) e o Prouni registraram recordes de participação e bolsas ofertadas em 2026. O Sisu teve 136 instituições participantes e 271 mil aprovados, enquanto o Prouni ofereceu 594,5 mil bolsas no primeiro semestre. Dados do MEC indicaram que quase 95 mil estudantes cotistas ingressaram na educação superior de 2024 a 2026, com um crescimento de 124% no número de cotistas aprovados por ampla concorrência no Sisu em relação a 2024.
Além disso, o número de bolsistas do Prouni autodeclarados pretos, pardos ou indígenas aumentou 65%, com mais de 65% dos ingressantes sendo da população negra. O número de cotistas matriculados pelo Sisu cresceu 177% de 2023 a 2025, passando de 45 mil para 105 mil.
Apesar dos avanços proporcionados pelas cotas, a equiparação educacional entre negros e brancos ainda está distante, conforme revelado por um estudo do IBGE em novembro de 2025. O estudo apontou que apenas 14,9% das mulheres negras acima de 25 anos concluíram o ensino superior, enquanto 30,3% das mulheres brancas com diploma em 2023.
No entanto, as cotas têm contribuído para a mudança dessa realidade, com o aumento da representatividade de estudantes negros no ensino superior desde 2014.
A UNEafro Brasil pressiona o MEC para que os alunos do Prouni tenham acesso à bolsa moradia e alimentação nas universidades, além de cobrar a expansão das cotas para a pós-graduação, onde a participação de pesquisadores negros, indígenas e quilombolas ainda é restrita.
Autor(a):
Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.
