“O Agente Secreto”: Tensão e crítica que chocam! Kleber Mendonça Filho entrega obra-prima com referências a Tarantino e Kafka. Wagner Moura impressiona na crítica à impunidade e à corrupção. Assista!
O cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho entrega, em “O Agente Secreto”, uma obra que merece toda a atenção. A experiência cinematográfica é marcada por um clima de tensão controlada, reminiscente de filmes como “O Som ao Redor”, e se distingue por uma rica tapeçaria de referências literárias e cinematográficas.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
O filme se transforma em um verdadeiro catálogo de paráfrases, metáforas e homenagens, com forte influência de Tarantino e Fellini, além de ecos da literatura de Mário de Andrade, em “Macunaíma”, e dos labirintos de Franz Kafka.
A direção de Mendonça Filho se caracteriza por um cinema de tensão, expectativa e inquietude, uma tarefa complexa que ele executa com maestria. O filme se estende por duas horas e 40 minutos, mantendo o espectador em constante suspense, utilizando a retenção estratégica de informações, pistas falsas e reviravoltas na trama, desafiando as expectativas de forma inteligente.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
A abertura do filme, com a cena do cadáver no posto de gasolina, a figura do frentista gordo, um personagem felliniano, e a chegada da polícia, já estabelece um tom perturbador e abafado, cortado pelo zumbido dos insetos, criando uma atmosfera que prenuncia o que está por vir.
O ponto alto da narrativa reside na interação entre o personagem Marcelo, interpretado com maestria por Wagner Moura, e um policial corrupto, que, ao se recusar a remover o cadáver, declara: “Não sou coveiro!”. Essa breve troca de palavras encapsula a crítica à impunidade e à negligência da justiça em face da violência e da opressão.
A pachorra do policial, que revista o fusca amarelo de Marcelo em busca de algo para se apropriar, ignorando o corpo fétido ao lado, é um retrato contundente da corrupção e da desconsideração pela vida humana.
A abertura do filme, em poucos minutos, já apresenta uma crítica aguda e pontual à ditadura civil-militar de 1964, um período que, até 2026, ainda ressoa com consequências na sociedade brasileira. O filme expõe a violência, a corrupção e a falta de justiça, elementos que se manifestam na figura dos “ratos” – policiais e matadores de aluguel – que operam na viatura policial, com presos no porta-malas, e na atmosfera de cinismo e broderagem ufanista que permeia o filme.
A relação entre os agentes repressivos e o universo hetero em conflito existencial é um ponto de reflexão, questionando as motivações e os dilemas morais dos personagens.
A influência de Tarantino se manifesta na capacidade de Kleber de resgatar e elevar gêneros considerados “inferiores”, como os pulp e oufilmes B de baixo orçamento. O filme se inspira em obras como “Matar ou Correr” (1954), de Carlos Manga, e utiliza elementos como a “perna cabeluda”, uma lenda da “perna cabeluda” que, de forma inesperada, adiciona um toque de humor e crítica social.
A cena noturna do jardim das delícias da broderagem recifense, com a “perna cabeluda” em atitude moralista e punitiva, é um exemplo da estética peculiar e provocadora de Mendonça Filho.
A complexidade do filme reside em sua exploração do grotesco e da brutalidade de gosto duvidoso, buscando, como Susan Sontag diria, uma “cultura camp” como veículo de crítica social e política. A utilização do grotesco e do absurdo permite que Kleber questione a realidade e exponha as contradições da sociedade brasileira.
O filme se distancia do gênero “agente secreto”, buscando, em vez disso, explorar temas como memória e esquecimento, temas que se tornam centrais para a compreensão da história do Brasil.
O filme de Mendonça Filho, com a atuação de , explora a dificuldade de luto, a raiva contida, o medo da verdade e o alto custo do silêncio. A tentativa de golpe em 2022/2023, e o consequente esquecimento da ditadura de 1964, são temas que se repetem ao longo do filme, evidenciando a importância de preservar a memória para evitar a repetição de erros do passado.
A obra de Kleber Mendonça Filho é um alerta sobre os perigos de um passado que, não sendo devidamente enterrado, insiste em assombrar os vivos e ditar o rumo do presente.
Autor(a):
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.