Crise Climática e Desastres Naturais em Juiz de Fora e Ubá: Uma Análise de Causas e Responsabilidades
A situação de calamidade enfrentada por Juiz de Fora, Ubá e outros municípios da Zona da Mata de Minas Gerais, desencadeada por um volume de chuvas recorde desde fevereiro de 2025, é amplamente atribuída a uma combinação de fatores, incluindo a negligência política e o contexto da crise climática global.
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Mais de 72 pessoas perderam a vida e mais de 8.500 foram deslocadas de suas casas, evidenciando a gravidade da crise. A especialista em gestão das águas urbanas, Carla Wstane, ressalta que este evento não pode ser visto como um incidente isolado, mas sim como um alerta urgente sobre a necessidade de responder de forma eficaz aos desafios impostos pela emergência climática.
Contexto Global e Impactos Locais
A crescente frequência de eventos climáticos extremos em todo o mundo, incluindo o que ocorreu no Rio Grande do Sul em 2024, reforça a avaliação de que a crise climática é uma realidade inegável. O governo federal reconheceu a situação de emergência em 16 municípios afetados, abrangendo Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, incluindo cidades como Água Boa, Areado, Cataguases e outras.
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A urgência da situação é amplificada pela necessidade de adaptação e resiliência diante das mudanças climáticas.
Responsabilidades e Modelo de Cidade
A especialista Wstane argumenta que a tragédia em Juiz de Fora e Ubá não é um evento isolado, mas sim resultado de um modelo de cidade que ignora os ciclos hídricos e que prioriza o lucro privado em detrimento da resiliência hídrica da população.
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O agronegócio, responsável por 54% das emissões de gases de efeito estufa em Minas Gerais, é apontado como um dos principais contribuintes para a crise climática, devido a práticas de irrigação arcaicas e à destruição da regulação natural do microclima.
Além disso, o desmatamento e as mudanças no uso da terra agravam a situação, conforme observado pela geógrafa Marta Freitas, que destaca a relação direta entre a mineração e o aumento do risco de rompimento de barragens de rejeitos.
Preparação das Cidades e Política Pública
O médico sanitarista e coordenador do Projeto Manuelzão, Marcus Vinícius Polignano, enfatiza que as cidades não estão preparadas para lidar com os impactos da crise climática, citando a situação de Belo Horizonte como um exemplo de sucesso na prevenção de desastres.
Ele defende a necessidade de repensar o planejamento urbano, protegendo ou removendo as populações vulneráveis de áreas de risco. O coordenador do Projeto Manuelzão também destaca a importância da vontade política e dos recursos financeiros para implementar medidas de adaptação e mitigação.
Descaso Planejado e Responsabilidade do Governo Zema
A geógrafa Carla Wstane critica a gestão do governador Zema, acusando-a de negligência ambiental em nome da “desburocratização”, que na prática resultou em um desmonte na fiscalização do setor. Ela destaca a redução no investimento em infraestrutura de prevenção a inundações e a fragmentação de políticas de saneamento e urbanismo, que dificultam a responsabilização em caso de desastre.
Wstane ressalta que a gestão Zema operou um “descaso planejado” com a flexibilização de licenciamentos e o enfraquecimento da fiscalização.
Mobilização da Sociedade e Legislação
Marta Freitas, coordenadora do MAM, enfatiza a necessidade de mobilização da sociedade para exigir legislações mais severas e projetos e recursos para a prevenção de desastres. Ela critica a falta de investimento em qualidade de vida para populações vulneráveis e defende um novo pacto socioambiental onde o interesse da coletividade e a preservação dos aquíferos valham mais do que os interesses do grande capital.
Wstane conclui, defendendo a necessidade de um planejamento integrado que trate saneamento e preservação de bacias como uma prioridade orçamentária inegociável, universalizando o tratamento de esgoto e implementando metas reais de descarbonização.
