Jovens desiludem após dois meses em estágios – estudo aponta risco na entrada do mercado

Jovens sentem frustração após dois meses sem oportunidades reais na entrada do mercado de atuação profissional.

24/08/2026 12:22

5 min

Estágio: motor de inovação, diversidade e formação de lideranças nas empresas.
Estágio: motor de inovação, diversidade e formação de lideranças...

O jovem brasileiro não desiste do estágio na entrada; o problema surge drasticamente após os primeiros dois meses. Essa é uma descoberta central da Pesquisa Jovens Talentos 2026 — considerada o maior estudo sobre essa experiência nacional —, e aponta para um desafio crítico nas empresas que recebem talentos em formação.

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Conduzido pela Academia do Universitário, empresa parceira de companhias como Volkswagen, Ipiranga e Vibra, junto ao executivo Kiko Campos, o levantamento ouviu mais de 4 mil estagiários trabalhando tanto no setor público quanto no privado por até dois anos.

Os pesquisadores identificaram padrões consistentes na jornada dos estudantes independentemente do porte das organizações envolvidas.

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O “Penhasco” da Experiência Estágio

Segundo os autores, a experiência é extremamente positiva nos primeiros trinta dias: com um NPS (Net Promoter Score) que marca +9,8 — indicando grande disposição para recomendar —, há uma sensação inicial de encantamento entre os novatos.

Contudo, aos sessenta dias ocorre uma queda abrupta e preocupante:

Neste ponto específico o indicador despenca drasticamente para −1,6 pontos percentuais; neste momento já existem mais detratores – aqueles dispostos a criticar –, do que promotores.

Essa recuperação emocional leva até dois anos no período contratual, mas nunca consegue devolver ao estagiário aquele entusiasmo da chegada. Por isso, Diego Cidade, fundador e CEO da Academia do Universitário, cunhou um nome: “penhasco dos 60 dias“.

Da festa à rotina: A gestão falha

“O onboarding brasileiro virou apenas um evento de boas – vindas — com kit especial ou foto para o LinkedIn”, explica ainda Cidade em sua análise sobre os processos corporativos atuais. Ele alerta que a experiência real não pode ser tratada como mero acontecimento; é algo contínuo.

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“Quando aquela ‘festa’ acaba e só começa a parte operacional da vida útil no trabalho, aí sim o jovem descobre estar sozinho. O penhasco representa exatamente esse intervalo entre aquilo que foi prometido pela empresa na entrada e como ela realmente gerencia essa jornada,” afirma ele.

O estágio brasileiro: uniforme e mediano

Outro achado do estudo preocupa especialmente profissionais de Recursos Humanos (RH). Dos 18 aspectos avaliados — abrangendo desde clareza nas responsabilidades até qualidade das lideranças —, nenhum atingiu um patamar considerado saudável para as empresas; é preciso ter pelo menos 75% em avaliações favoráveis, mas todos ficaram numa faixa intermediária preocupante:

Todos os itens se situaram entre a marca dos 60% e o limite máximo estabelecido. Em termos práticos, isso significa que há uma média generalizada no modelo estagiário brasileiro: ele funciona bem na maioria das coisas boas, porém não alcança excelência nenhuma.

Onde acolhe melhor. Os pontos mais elogiados pelos jovens são aqueles relacionados ao ambiente de apoio físico ou emocional; por exemplo, “o local permite aprender mesmo quando erro” lidera com um índice favorável em torno de 68,3%. No entanto, os itens onde se espera maior desenvolvimento profissional — como receber feedbacks construtivos e visualizar oportunidades reais para seguir carreira dentro da empresa —, apresentam as notas mais baixas do levantamento.

O item sobre a possibilidade real de continuidade na organização foi o menos forte dos avaliados (apenas 62,4%.

O paradoxo entre gestor aberto e retorno fraco

A pesquisa também expôs uma contradição no relacionamento estagiário – líder: embora seja muito fácil perguntar por ajuda quando há dúvidas (“posso pedir auxílio”), é justamente em relação ao feedback estruturado que os jovens demonstram maior fragilidade.

Kiko Campos aponta esse dilema dizendo que “a porta do líder está aberta para receber perguntas de qualquer momento. Mas o processo formal de dar um bom feedback não consegue atravessá – la”.

Ele explica ainda como essa situação cria, na prática, algo parecido com loteria profissional; dois estudantes da mesma turma podem passar experiências completamente opostas dentro dos mesmos muros corporativos porque a experiência depende demais diretamente quem será seu gestor imediato no período.

Em números mais concretos sobre setores: nas empresas privadas observou – se NPS em +12,0 pontos percentuais contra apenas +3,5 nos órgãos públicos — melhoria que aponta uma diferença setorial significativa.

O estágio visto pelo lado econômico

Além do aspecto humano e de gestão diária, o estudo traz um panorama financeiro crucial. O Brasil possui cerca de 20,1 milhões de estudantes aptos para estagiar; contudo, a ABRES informa que somente uns seis por cento desses jovens conseguem efetivamente conquistar alguma vaga no mercado.

Apesar disso, os dados mostram outro paradoxo: as empresas utilizam estágios como funil mais barato possível na contratação júnior em todo país — sendo capazes de manter entre quarenta e sessenta percentual dos contratados.

Diego Cidade ressalta esse potencial econômico ao afirmar que “efetivar um jovem já formado dentro da própria empresa custará uma fração do valor necessário se fosse contratar analista sênior vindo diretamente pelo mercado”. Ele conclui apontando o maior risco para a gestão corporativa. O item sobre visualizar futuro é consistentemente fraco porque quem permanece por muito tempo acaba enxergando menos continuidade, apesar desse ser justamente onde as empresas têm seu canal operacional (o pipeline) mais eficiente. Para reverter essa situação, os autores sugerem quatro ações: medir continuamente nos dias 30 e no dia de 60; garantir presença forte dos líderes nesse período crítico com conversas claras de carreira desde cedo;

Tornar visível um plano claro

É fundamental que critérios claros de efetivação sejam apresentados aos estagiários logo na primeira semana. O simples “vamos ver” é interpretado pelo jovem como a ausência total de futuro profissional naquele local.

Outra medida prática envolve tirar o trabalho puramente operacional do caminho da gestão diária para usar tecnologia em triagem, devolvendo tempo ao líder humano — aquele momento essencial onde ele deve estar presente e interagir diretamente nos processos complexos.

O estudo conclui com os números: 963 dos estudantes ouvidos no setor privado versus 4028 dos públicos; NPS saltando +12,0 pontos percentuais nas empresas privadas contra apenas +3,5 públicas.”

Autor(a):

Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.

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