Imigrantes em Almería revelam desafios da vida em assentamentos informais na Espanha

A realidade dos migrantes em Almería expõe a luta por dignidade e oportunidades em meio a condições de vida precárias e desafios legais na Espanha.

23/08/2026 07:11

4 min

Embora a região dependa fortemente de trabalhadores migrantes, os trabalhadores sem documentos relatam ganhar apenas quatro a cinco euros por hora — quase metade do salário mínimo legal —, o que os impede de arcar com moradia adequada
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Amoateng Foster, de 44 anos, observa a sala de aula improvisada ao ar livre em Almería, no sul da Espanha. O ex – professor de matemática em Gana vive em um assentamento informal de migrantes, onde ele e milhares de trabalhadores se dedicam à colheita em estufas que abastecem a Europa com frutas e verduras durante o inverno.

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As condições são desafiadoras, e a remuneração é escassa para aqueles que não têm documentos. “Não é fácil estar aqui se você não tem os documentos em ordem”, diz ele, refletindo sobre sua dura realidade na Espanha.

Foster deixou seu emprego em busca de uma vida melhor para poder pagar a educação universitária de seus filhos. No entanto, o que encontrou foi um cenário muito diferente do esperado. “Se você está lá fora, pode pensar que tudo aqui é um mar de rosas”, afirmou. “Mas não é.” Em Don Domingo de Arriba, sua nova casa, a pobreza é extrema.

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Os moradores vivem em um bairro construído com materiais improvisados, sem eletricidade ou água encanada — uma situação surreal para a Europa do século XXI.

Condições precárias de vida

Centenas de pessoas enfrentam dificuldades semelhantes às de Foster na região de Níjar, onde pelo menos quatro assentamentos informais foram identificados pela CNN. “Olhe para o ambiente em que vivemos. Não é bom, mas nos viramos porque estamos aqui e não é fácil voltar”, desabafou Foster.

O final de julho trouxe uma onda de migração quando muitos cruzaram a fronteira entre Marrocos e Espanha rumo à cidade autônoma de Ceuta. As imagens desse desespero humano geraram críticas por parte de governos europeus à gestão espanhola sobre migração.

Irmã Francisca, coordenadora da filial local das Irmãs Mercedárias da Caridade, respondeu aos ataques dizendo: “Nem nós nem qualquer outra organização que apoia migrantes somos a razão pela qual eles vêm.” Ela defende que esses indivíduos buscam dignidade e oportunidades.

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A organização da Irmã Francisca oferece aulas de idiomas e oficinas para ajudar na integração dos migrantes na sociedade espanhola. Além disso, distribuem cestas básicas doadas por supermercados locais. “Qualquer pessoa pode bater à nossa porta… Às vezes pedem apenas um sanduíche”, destacou ela.

Desafios enfrentados pelos migrantes

No centro de distribuição da organização em San Isidro, Irmã Estella prepara as cestas básicas enquanto verifica os dados dos beneficiários em um banco de dados. “Estamos felizes em fazer isso porque as pessoas realmente precisam comer e sobreviver”, disse ela.

Nos dias mais movimentados, cerca de 50 famílias recebem ajuda; quando as doações diminuem, esse número cai para 20. Entre os necessitados está Amal, uma mãe marroquina que deixou seus filhos para trabalhar na colheita de morangos na Espanha. Após perder o emprego devido a desentendimentos com seu empregador, ela agora enfrenta dificuldades extremas: “É difícil… Não há trabalho, não há onde morar”, lamentou.

A realidade do mercado agrícola

A migração irregular para a Europa diminuiu nos primeiros meses deste ano em comparação ao anterior; entretanto, algumas rotas estão apresentando aumento significativo no fluxo migratório. A Frontex identificou a rota do Mediterrâneo Ocidental como uma das mais perigosas atualmente.

Almería é conhecida por ser a “horta da Europa”, produzindo anualmente mais de 3,5 milhões de toneladas de produtos frescos que alimentam aproximadamente 500 milhões de pessoas. Porém, esses números escondem uma realidade brutal: muitos trabalhadores indocumentados ganham menos da metade do salário mínimo legal espanhol.

Com salários variando entre quatro e cinco euros por hora — quase metade do salário mínimo — essas pessoas enfrentam condições duras nas estufas. “Você trabalha em um ambiente quente, ajoelhado, sem parar”, contou Foster sobre sua rotina extenuante.

A ascensão do sentimento anti – imigração

Apesar da dependência econômica dessa mão – de – obra imigrante em Almería, o sentimento anti – imigração tem crescido na região. Grafites xenófobos surgem nas ruas e partidos políticos populistas como o Vox aproveitam essa onda negativa para ganhar espaço político.

Na Andaluzia — onde Almería está localizada — o Vox obteve ganhos eleitorais significativos desde 2018. Os moradores expressam preocupações sobre os imigrantes: “São pessoas que não querem se integrar”, afirmou Rosendo, um residente local.

Esse paradoxo entre necessidade econômica e receio social persiste na Europa: enquanto alguns clamam por mais imigração qualificada e controlada, outros se opõem à presença dos imigrantes indesejados nas comunidades locais.

A esperança por mudanças

O governo espanhol tenta mudar essa realidade com um programa de anistia que visa regularizar quase meio milhão de imigrantes indocumentados no país há pelo menos cinco meses. Apesar das dificuldades enfrentadas pelos migrantes como Foster e Amal, ele acredita que todos podem se beneficiar dessa situação: “É uma situação em que todos saem ganhando”.

Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.

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