Lista e Vigilância no IFSul Pelotas: Uma Realidade Preocupante
Em 20 de março de 2026, uma lista que continha termos pejorativos e classificava alunas do IFSul Campus Pelotas de forma objetificada e prejudicial começou a circular em aplicativos de mensagens entre estudantes. O incidente se agravou rapidamente, atingindo o controle no sábado e expondo uma situação alarmante no domingo de manhã.
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Cristina Zanella, professora de inglês e integrante de diversos coletivos, soube do ocorrido através do grupo de mulheres que formava parte, um espaço de apoio criado após a percepção de falta de segurança.
Na segunda-feira seguinte, Zanella compareceu à sala de aula e constatou a ausência de cinco alunas, vítimas da lista. A professora, doutora em Letras pela UFPel, coordenadora do curso de Pós-Graduação em Linguagens Verbo-Visuais e Tecnologias no IFSul e representante do Sinasefe, expressou sua preocupação com a gravidade da situação, ressaltando que a palavra mais ofensiva não constava no documento, o que, na sua visão, intensificava o impacto do ocorrido.
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O Impacto da Vigilância
O que mais assustava Zanella não era a utilização de termos pejorativos, mas sim o ranqueamento das alunas, revelando um ato de vigilância e observação dentro do campus. Alguém estava monitorando os comportamentos, as relações e a vida das estudantes, sem que elas tivessem conhecimento.
A professora descreveu o momento como “o momento de catarse”, uma onda de conscientização que se propagou pela escola.
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A Origem do Coletivo Ellas
O Coletivo Ellas, que surgiu em 2021 em resposta a um comentário discriminatório sobre uma colega que havia perdido uma eleição interna, nasceu com o objetivo de promover a educação, a luta, a liberdade, o amor e a sororidade. O coletivo funciona de forma não institucional, utilizando um formulário de entrada, termo de compromisso e uma regra clara: “o que acontece em Vegas fica em Vegas”.
A resolução CONSUP nº 270/2023, que estabelece a criação dos Núcleos de Prevenção e Enfrentamento a Assédios e Violências (NUPAVs) em todos os campi do IFSul, ainda não foi implementada, apesar de esforços que remontam a 2023.
Desafios na Implementação de Protocolos
A falta de NUPAVs representa um problema concreto, pois as denúncias acabam sendo encaminhadas para a direção, que pode ter laços com a pessoa denunciada. Zanella enfatiza a necessidade de um núcleo independente, com autonomia para analisar as denúncias de forma objetiva.
A ausência de canais de denúncia eficazes cria uma “válvula de escape” para os problemas, dificultando a resolução e a responsabilização dos agressores.
A Necessidade de Mudanças e Ampliação de Ações
Após a divulgação da lista, perfis no Instagram começaram a circular relatos e acusações anônimas envolvendo outras situações no campus. Zanella acredita que essa reação é natural quando não há canais institucionais confiáveis. Ela defende a importância da transparência institucional como substituto para a rede social.
Protocolos, Sigilo e Rastreabilidade
A solução, na visão de Zanella, é estruturar os processos de denúncia, garantindo protocolos claros, sigilo, encaminhamento rastreável e responsabilização dos agressores. É fundamental que as vítimas saibam que suas denúncias serão ouvidas, preservadas e que os agressores serão punidos.
Além disso, é preciso considerar a formação e o acompanhamento dos estudantes envolvidos.
Ampliação da Formação e Conscientização
Zanella propõe que a Secretaria Municipal de Educação crie estruturas equivalentes na rede pública, que o IFSul desenvolva projetos de extensão em parceria com outras escolas e que a formação de professores seja ampliada, abrangendo não apenas os já sensibilizados.
Ela critica a falta de diálogo em eventos internos de formação, que muitas vezes reúnem apenas aqueles que já compartilham da mesma visão.
Um Pedido de Desculpas
Por fim, Zanella destaca a importância de um gesto simples: que os estudantes envolvidos emitem pedidos de desculpas às alunas. Ela acredita que esse pedido, feito como um começo de outra coisa, pode ser mais significativo do que o encerramento de um caso, contribuindo para a transformação e a reparação.
