Crise climática e HIV: Alerta! Eventos extremos aumentam vulnerabilidade e riscos. Estudo aponta para queda na testagem e aumento de comportamentos de risco. A situação é agravada pela destruição de regiões e interrupção de serviços de saúde. O PEPFAR é suspenso, gerando crise no financiamento global
A emergência climática está silenciosamente remodelando as estratégias de prevenção e tratamento do vírus da imunodeficiência humana, o HIV. Um estudo recente, publicado em junho de 2024, sugere que a ocorrência de eventos climáticos extremos tem aumentado a vulnerabilidade da população ao patógeno causador da AIDS e agravado as condições de saúde de quem já convive com o vírus.
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A pesquisa, conduzida por instituições no Canadá entre 2022 e 2024, focou na relação entre fenômenos como a seca prolongada e a escassez de água, que se destacam como os principais impactos na prevenção da infecção pelo HIV.
Em diversas regiões dos Estados Unidos e do continente africano, observou-se uma diminuição na testagem para o vírus e um aumento nos comportamentos de risco, como o sexo transacional (troca de sexo por dinheiro, favores ou bens materiais) e as relações sexuais sem preservativo.
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A situação é agravada pela destruição de regiões, que dificulta o acesso às estruturas de saúde para tratamento e diagnóstico. A infectologista Fernanda Pedrosa Torres, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia, ressalta que a falta de recursos e a interrupção de serviços de saúde criam um ciclo de vulnerabilidade, com desvio de esforços para ações emergenciais em detrimento da prevenção.
Embora o impacto desses fenômenos possa ser mais sentido em países subdesenvolvidos, eles também se manifestam em regiões consideradas em desenvolvimento ou já desenvolvidas. No Brasil, a relação entre a seca na região Nordeste e as inundações no Rio Grande do Sul tem sido observada, com o aumento na notificação do HIV.
Um estudo da UFRGS, publicado em junho de 2024, aponta que as chuvas de 2024 em Porto Alegre impactaram a continuidade do uso da PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) ao HIV, com alguns usuários recorrendo a estratégias improvisadas e outros suspensos o tratamento por dificuldades de acesso aos serviços de saúde.
A crise climática não apenas exacerba os riscos existentes, mas também ameaça a capacidade de resposta à epidemia de HIV. A suspensão do PEPFAR (Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o alívio da AIDS) anunciada no início de 2025 pelo governo de Donald Trump, que representava 75% do financiamento global ao combate à epidemia, e a consequente redução do acesso a medicamentos e serviços de saúde, geram um cenário preocupante.
A falta de recursos financeiros, somada aos impactos climáticos, pode levar a uma redução drástica na capacidade de resposta à epidemia, com estimativas de que a adaptação aos efeitos das alterações climáticas deverá custar cerca de US$ 387 bilhões por ano.
A médica do Einstein Goiânia, Fernanda Torres, enfatiza a importância do planejamento de políticas públicas de saúde para enfrentar os desafios. Sugere a incorporação do fator climático nas estratégias de prevenção e tratamento, com o uso de tecnologias como a telemedicina e clínicas móveis, além da descentralização dos postos de dispensação de medicamentos.
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) liberou o uso do cabotegravir como PrEP de administração bimestral, e o lenacapavir, outra PrEP injetável, estão em fase de avaliação para uso no Brasil. A busca por soluções e a solidariedade internacional são cruciais para garantir que a resposta à epidemia de HIV não seja comprometida pela crise climática.
Autor(a):
Gabriel é economista e jornalista, trazendo análises claras sobre mercados financeiros, empreendedorismo e políticas econômicas. Sua habilidade de prever tendências e explicar dados complexos o torna referência para quem busca entender o mundo dos negócios.