Em 2022, a Globo registrou um faturamento de 16,4 bilhões de reais, superando os 15,1 bilhões de 2023, com publicidade gerando 10,8 bilhões—alta de 14%.
Manzar Feres, a executiva à frente do departamento comercial da Globo, inicia sua conversa com a EXAME antes do Upfront 2026, evento que apresenta as novidades da emissora para o próximo ano. A primeira pergunta é inevitável: “Quem matou Odete Roitman?”
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“Menino, eu tenho palpites quentíssimos, mas assista”, brinca Manzar. “Na segunda-feira tem uma revelação, e no último capítulo, outra. Vai ser muito doido”. Vale Tudo se destacou como o maior sucesso de vendas de uma novela da Globo, arrecadando cerca de 200 milhões de reais, conforme estimativas do setor.
Na reta final da novela, mais de 20 marcas confirmaram presença, com sete delas — OMO, iFood, Dove, Itaú, Zé Delivery, Subway e Serasa — desenvolvendo campanhas específicas relacionadas ao mistério da morte de Odete Roitman. O espaço para anúncios na trama está praticamente esgotado, com a exibição se encerrando nesta sexta-feira, 17.
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“Eu chego a ficar doente”, diz Manzar, rindo. “Toda vez que eu tenho que perder dinheiro porque não tem lugar pra botar uma marca, eu sofro”. Debora Bloch, atriz que interpreta a vilã, comentou no Upfront, realizado em 13 de novembro, que ninguém está mais feliz com essa morte do que a Globo.
Os telespectadores notam que praticamente não há capítulo sem algum tipo de merchan, o que gerou críticas. Contudo, isso não incomoda a Globo. Desde 2019, a emissora tem testado novos modelos de publicidade integrados às suas produções, que se tornaram mais sofisticados ao longo do tempo.
Hoje, é comum que a novela faça uma transição para o comercial, com personagens promovendo produtos. “Quando fazemos um combinado — TV Globo, redes sociais, Globoplay, personagem — o retorno é muito maior”, afirma Manzar.
No ano passado, a Globo obteve um faturamento de 16,4 bilhões de reais, em comparação aos 15,1 bilhões de 2023, com a publicidade representando 10,8 bilhões de reais — um crescimento de 14%. O lucro também foi recorde, alcançando quase 2 bilhões de reais, mais que o dobro do ano anterior.
Esses números positivos surgem em um momento desafiador para a Globo e outras emissoras de TV aberta, que enfrentam a concorrência da publicidade digital e a ascensão de plataformas como Netflix e HBO Max.
A Globo está implementando um novo plano para monetizar sua programação, chamado DTV+. Essa tecnologia permitirá a veiculação de publicidade segmentada na TV aberta, algo que até agora era exclusivo do ambiente digital.
A regulamentação foi aprovada em agosto, e os primeiros testes estão sendo realizados no Rio de Janeiro e em São Paulo. “A gente trabalha nisso há anos”, diz Manzar. “Nosso modelo de negócio já está preparado. O que vamos fazer agora é escalar.”
Desde o final de 2022, a Globo começou a operar com inserções dinâmicas de publicidade nos canais lineares transmitidos via Globoplay, funcionando como um piloto da DTV+. Se duas pessoas assistem à mesma novela ao vivo, podem ver comerciais diferentes, de acordo com seus perfis.
Isso é possível porque o Globoplay exige login, e a emissora já possui uma base de mais de 140 milhões de perfis únicos. Esses dados permitem que marcas criem campanhas específicas, com menos dispersão e resultados mais mensuráveis.
A Globo também está transformando a forma de contar histórias. A emissora prepara uma grande aposta: os microdramas, novelas em episódios verticais de 2 a 3 minutos, projetadas para redes sociais e dispositivos móveis.
A proposta é adaptar a dramaturgia da Globo à lógica de consumo rápido das plataformas digitais. O primeiro lançamento será ‘Tudo Por Uma Segunda Chance’, estrelado por Jade Picon, e outros títulos serão lançados exclusivamente no Globoplay.
No setor esportivo, a Globo enfrenta novos desafios. Pela primeira vez, os direitos de transmissão do Brasileirão foram divididos entre diferentes players. Em 2025, a CazéTV, do influenciador Casimiro Miguel, ganhou destaque ao transmitir partidas ao vivo no YouTube.
A resposta da Globo foi rápida, criando a GeTV, um canal de entretenimento esportivo disponível em várias plataformas. “Mostramos que a Globo age rápido. Do dia que decidimos até entrar no ar foram três meses”, afirma Manzar.
Em 2026, a Globo retornará à transmissão da Fórmula 1, com 15 GPs ao vivo na TV aberta, e também terá os direitos da Copa do Mundo, que ocorrerá nos Estados Unidos, Canadá e México. Ronaldinho Gaúcho e Denílson foram anunciados como embaixadores da cobertura.
Na Globo, a pergunta que vale milhões já não é mais apenas “quem matou Odete Roitman?”, mas sim como transformar cada morte, trama, meme ou gol em uma nova oportunidade de negócio.
Autor(a):
Fluente em quatro idiomas e com experiência em coberturas internacionais, Ricardo Tavares explora o impacto global dos principais acontecimentos. Ele já reportou diretamente de zonas de conflito e acompanha as relações diplomáticas de perto.