A Reação à Guerra: Um Desafio à Nossa Compreensão da Saúde
Reagir diante da violência da guerra e da aparente covardia daqueles que a fomentam, buscando entender essa reação, levanta questões cruciais sobre a nossa saúde mental e a possibilidade de uma patologia subjacente. A reflexão sobre o pensamento do filósofo Georges Canguilhem nos oferece uma nova perspectiva sobre essa complexa situação.
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Canguilhem, especialista em História da Ciência, dedicou sua vida a investigar o que entendemos por saúde e doença, desconstruindo a visão tradicional de que um organismo doente é simplesmente mal adaptado ao seu ambiente.
A Saúde como Capacidade de Adaptação Dinâmica
Canguilhem propõe uma ideia radical: um organismo doente é, na verdade, aquele que está perfeitamente adaptado ao seu meio. Qualquer tentativa de mudança nesse estado de adaptação se torna intolerável. Essa perspectiva desafia a noção comum de que a guerra é um fenômeno histórico inevitável, uma catástrofe existencial que exige a resistência à mudança e à dinâmica da vida.
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Em contrapartida, o organismo saudável necessita da mudança, da inadaptabilidade à norma, que o impulsiona a buscar novos caminhos, valores e flexibilidade.
Para Canguilhem, a vida é uma atividade normativa, ou seja, uma atividade que cria suas próprias regras no próprio ato de viver. Essa criação só é possível devido ao descompasso, à tensão entre o ser vivo e o seu ambiente. É nessa margem de incerteza que surgem a aventura, a luta, o aprendizado e a descoberta.
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Um organismo perfeitamente adaptado não precisaria da inteligência, da invenção ou da cultura.
A Humanidade como Produto da Não-Adaptação
Nossa própria humanidade, com sua capacidade de criar novos valores, técnicas e mundos, é fruto dessa “precariedade” fundamental, dessa não-adaptação completa que nos obriga a transformar o mundo para nele viver. A visão de Elisabeth Roudinesco, psicanalista e biógrafa de Canguilhem, reforça essa ideia: Canguilhem foi um filósofo da rebelião conceitual, horrorizado com qualquer abordagem que reduz o ser humano a um mero instinto, previsível e reativo.
Canguilhem e a Importância da Mudança
Ao afirmar que a saúde é a capacidade de criar novas normas e de enfrentar a mudança, Canguilhem nos apresenta o homem como um ser aberto ao possível, um ser de História e de criação, e não como uma engrenagem fixa na máquina da Natureza ou da sociedade.
A leitura de “O Normal e o Patológico” de Canguilhem, especialmente em tempos como os atuais, de choro e ranger de dentes, é um convite à reflexão.
*Cristóvão Feil é sociólogo.
