Ao dirigir pelas ruas e estradas, muitos motoristas não percebem que estão utilizando tecnologias testadas a mais de 300 km/h. A Fórmula 1 não é apenas uma competição de velocidade; é também o mais caro e eficiente departamento de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) do mundo.
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O que hoje é considerado um item de segurança ou conforto, muitas vezes foi a chave para conquistas de títulos mundiais de construtores em décadas passadas. A transição das pistas para as ruas ocorre por meio de um processo de simplificação e redução de custos, mas os princípios de engenharia permanecem inalterados.
Para entender os principais legados das corridas no cotidiano dos motoristas, a reportagem conversou com o engenheiro automotivo Iago Atila. Ele destaca que a troca de informações entre as equipes de corrida e as montadoras foi fundamental para os avanços observados nos últimos 30 anos.
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Um dos maiores avanços na engenharia automotiva moderna é a forma como os carros lidam com colisões. Antigamente, acreditava-se que um carro “duro” era mais seguro, mas a Fórmula 1 demonstrou que o ideal é que o carro se deforme para proteger os ocupantes. “Na Fórmula 1, foi desenvolvido um método para proteger o piloto com uma célula altamente resistente, cercada por estruturas que absorvem a energia do impacto”, explica Iago.
A grande inovação ocorreu em 1981, com o lançamento do McLaren MP4/1, que foi o primeiro carro da F1 a utilizar um chassi de fibra de carbono, base do conceito moderno de célula de sobrevivência. Essa lógica foi adaptada nos carros de passeio, combinando um habitáculo rígido com áreas de deformação programada.
Hoje, modelos modernos utilizam estruturas avançadas para dispersar a energia de colisões. “Um exemplo atual é a estrutura ACE, que protege o habitáculo e se tornou padrão a partir da década de 90”, acrescenta Iago.
O controle de tração eletrônico é outro exemplo de tecnologia que migrou das pistas para a segurança pública. Esse sistema detecta quando uma roda está girando em falso e reduz o torque para restaurar a aderência. “Isso melhora as arrancadas em superfícies escorregadias e ajuda na estabilidade do veículo”, resume Iago.
Essa tecnologia teve seu auge no início dos anos 90, especialmente com o icônico Williams FW14B de 1992.
Naquela época, o sistema era tão eficiente que a FIA decidiu proibi-lo em 1994, considerando que facilitava demais a pilotagem, retornando apenas em 2001. Nas ruas, o controle de tração deixou de ser um recurso exclusivo de carros importados e passou a ser oferecido em modelos de entrada no Brasil. “A popularização começou nos anos 2000 e se consolidou na década de 2010, com carros como Chevrolet Onix, Fiat Argo, Volkswagen Polo e Hyundai HB20 oferecendo o sistema como item de série”, afirma Iago.
A busca por eficiência e redução de emissões levou a indústria automotiva ao conceito de downsizing, que envolve motores menores e mais leves, mas com alto desempenho, graças ao turbocompressor. Essa tecnologia utiliza a energia dos gases que seriam desperdiçados no escapamento para injetar mais ar no motor.
A Fórmula 1 foi pioneira nessa área, com o Renault RS01, que estreou em 1977 no GP da Inglaterra, sendo o primeiro carro turbo da categoria.
O que antes era uma tecnologia focada apenas em potência nas pistas foi refinado para priorizar a economia de combustível nos carros de passeio. Iago destaca que essa tendência se intensificou no mercado brasileiro nos anos 2010, com motores menores e turbocomprimidos sendo adotados em compactos e sedãs.
Exemplos notáveis incluem o Ford New Fiesta 1.0 EcoBoost e o Renault Clio TCe, que oferecem desempenho equivalente a motores 2.0, mas com maior eficiência de combustível.
As famosas “borboletas” atrás do volante, que permitem trocas de marcha rápidas sem que o motorista tire as mãos da direção, surgiram da necessidade de milissegundos nas pistas. “A principal vantagem desse sistema é a redução do tempo de troca, permitindo que o motorista mantenha ambas as mãos no volante, aumentando conforto e controle”, explica Iago.
O sistema foi introduzido na F1 com a Ferrari 640, em 1989, desenvolvida pelo engenheiro John Barnard.
Logo, a tecnologia começou a ser incorporada nos carros de rua. “A Ferrari afirma que o modelo 355 F1, de 1997, foi o primeiro a incluir o paddle shift em veículos de passeio”, observa o engenheiro. Atualmente, essa funcionalidade está presente em uma ampla gama de veículos, incluindo sedãs executivos e SUVs, como Toyota Corolla, Volkswagen Nivus e Honda Civic.
A capacidade do carro de “ler” o terreno e ajustar a firmeza da suspensão em tempo real é uma herança direta da busca por aderência aerodinâmica. “O objetivo é proporcionar um controle superior sobre a rolagem da carroceria, a inclinação durante as frenagens e o conforto”, define Iago.
Embora o conceito tenha surgido na Lotus em 1983, foi em 1992 que a suspensão ativa se tornou um fator crucial para a performance.
Nas ruas, essa tecnologia evoluiu para sistemas eletrônicos que avaliam dados constantemente. “Um exemplo claro é o Ford Focus de 2018, que possui um sistema de Amortecimento Controlado Continuamente, avaliando dados a cada 2 milissegundos e ajustando os amortecedores instantaneamente”, conclui Iago.
Autor(a):
Com uma carreira que começou como stylist, Sofia Martins traz uma perspectiva única para a cobertura de moda. Seus textos combinam análise de tendências, dicas práticas e reflexões sobre a relação entre estilo e sociedade contemporânea.
