A realização da segunda edição da feira, localizada na zona sul de Porto Alegre, representa um marco significativo na consolidação de políticas culturais descentralizadas na capital gaúcha. O evento, que ocorreu entre os dias 9 e 12 de abril, ampliou sua programação e se direcionou a diversos públicos, reforçando o objetivo de democratizar o acesso à leitura e fortalecer a produção cultural local, especialmente em regiões que historicamente não tinham contato com os grandes circuitos literários da cidade.
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A iniciativa faz parte do Abril Livro, promovido pela organização, que busca expandir suas ações para além da tradicional Feira do Livro de Porto Alegre, realizada na Praça da Alfândega. A proposta central é aproximar o livro e a literatura de públicos que, muitas vezes, enfrentam dificuldades de acesso, com foco em crianças e jovens das periferias.
A construção da feira na Restinga não surgiu de forma isolada, mas como um desenvolvimento de projetos anteriores já em andamento no território. O produtor cultural André de Jesus destaca que o acesso ao livro sempre foi um objetivo das ações locais, especialmente a partir de experiências como a criação de uma geloteca em um terreiro da comunidade, ligada a projetos culturais e educativos.
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Segundo ele, a relação com a leitura está conectada a uma trajetória mais ampla de formação em cultura popular, políticas públicas e a pedagogia da africanidade, do terreiro e do tambor.
A primeira edição da feira, realizada no ano anterior, foi encarada como uma experiência valiosa. De acordo com André de Jesus, o evento serviu como um teste para entender como o público da Restinga se relacionaria com uma feira do livro em seu próprio território.
Essa característica, segundo ele, está ligada à própria formação social e cultural do bairro, historicamente marcado por feiras livres, manifestações artísticas de rua e ocupação de espaços públicos.
A segunda edição representa, na avaliação dos organizadores, um avanço qualitativo. A programação foi expandida, incorporando diferentes linguagens culturais, como slam, cinema, música, rodas de conversa e atividades formativas, além dos tradicionais encontros com autores.
Um amadurecimento na relação com o território e com o público foi observado, qualificando a participação da comunidade para o direito à leitura. A disputa pela atenção do público, especialmente de jovens, é um desafio constante, considerando a presença das plataformas digitais.
Apesar dos desafios, a estratégia tem se concentrado em fortalecer a articulação com escolas da região e ampliar o diálogo com a comunidade como um todo. A programação inclui atividades voltadas ao ambiente escolar, mas também contempla manifestações culturais locais, como samba, cultura do tambor e encontros de coletivos culturais.
A escolha do local, uma avenida que concentra equipamentos públicos e espaços de convivência, como posto de saúde, pista de skate e campo de futebol, é estratégica. A intenção é consolidar o espaço como um eixo cultural permanente. Há debates em andamento para que a via seja oficialmente reconhecida como uma avenida da cultura e para que a feira passe a integrar o calendário oficial da cidade.
O jornalista e antropólogo , o patrono da feira, destaca que a realização do evento dialoga com uma tradição já existente na Restinga. Ele ressalta que o território possui uma história ligada à leitura, construída principalmente a partir de escolas públicas e iniciativas comunitárias.
Segundo ele, a presença de bibliotecas, como a unidade pública do bairro, e a circulação de livros por meio de doações ajudaram a formar gerações de leitores.
Elemento como o hip hop, os slams e até os sambas-enredo são apontados como manifestações que dialogam diretamente com a literatura e contribuem para a formação de leitores e escritores. Na avaliação de Bittencourt Jr., a feira cumpre um papel estrutural ao aproximar autores, leitores e livreiros, criando um ambiente de troca e formação.
Ele também destaca que eventos desse tipo tendem a crescer com o tempo, citando como exemplo a própria Feira do Livro de Porto Alegre, que começou de forma modesta e se tornou uma das maiores da América Latina. Para o patrono, a tendência é que a feira da Restinga siga caminho semelhante, ampliando seu alcance e se consolidando como referência.
A importância da feira também é destacada por outros participantes da programação. Um avalia que o evento representa uma conquista no campo da inclusão sociocultural. Segundo ele, iniciativas como essa são fundamentais para atender demandas históricas das periferias.
Na mesma linha, o educador José Ventura ressalta que o acesso ao livro ainda é limitado para muitos jovens e crianças da comunidade.
Isabel Cristina enfatiza o impacto da iniciativa no cotidiano da comunidade. Segundo ela, a descentralização das atividades culturais permite que públicos que raramente frequentam o centro da cidade tenham acesso à literatura e à educação. “É a educação posta na vila”, resume.
Ao longo de quatro dias, a feira reúne uma programação intensa, que articula atividades educativas, culturais e artísticas. As manhãs e tardes são marcadas por encontros com autores voltados a estudantes de diferentes etapas de ensino, incluindo educação infantil, ensino fundamental, médio e educação de jovens e adultos.
A abertura oficial ocorre no dia 9 de abril, quinta-feira, com a presença do patrono, seguida de atividades que incluem rodas de conversa sobre ancestralidade, encontros literários e apresentações culturais. Ao longo da programação, temas como cultura afro-brasileira, história, identidade e educação aparecem de forma recorrente.
Entre os destaques estão atividades como o debate sobre os , apresentações de cinema itinerante com exibição de produções audiovisuais, formação de mediadores de leitura, espetáculos de teatro de bonecos e rodas de conversa com agentes culturais e educadores.
A programação também incorpora , como rodas de samba, além de atividades voltadas à cultura hip hop e poesia falada, reforçando o diálogo com expressões culturais já presentes no território. Outro eixo importante é a contação de histórias, considerada pelos organizadores como um dos principais instrumentos de formação de leitores.
As atividades ocorrem diariamente em uma tenda específica, com sessões pela manhã e à tarde, voltadas especialmente ao público infantil.
A expectativa dos organizadores é de que a segunda edição amplie o público e fortaleça o vínculo da feira com a comunidade local. A articulação com escolas é vista como um dos principais caminhos para garantir a participação de crianças e jovens, embora desafios logísticos ainda existam.
Ao mesmo tempo, há uma aposta na diversidade da programação como estratégia para atrair diferentes públicos, incluindo adultos e agentes culturais da região. Na avaliação de Bittencourt Jr., o evento tem potencial para formar novas gerações de leitores e até mesmo futuros escritores.
Para ele, a presença do livro no território “contribui para ampliar horizontes e fortalecer identidades culturais”. A consolidação da feira como parte do calendário cultural da cidade também aparece como uma meta. A proposta é que o evento deixe de ser apenas uma iniciativa pontual e passe a integrar de forma permanente o circuito cultural de Porto Alegre, ampliando sua visibilidade e impacto.
Autor(a):
Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.
