“Extermínio: O Templo dos Ossos” provoca reflexões sobre fé e humanidade. Ateu e satanista se encontram em um memorial de cadáveres, em um teste de fé que ecoa “Padre Quemedo e o Filho do Capeta”. O filme alerta sobre o Brexit e o isolamento cultural, com a busca por propósito e pertencimento
O ditado popular sobre chamar o Satanás e atraí-lo para a vida carrega uma estranha ressonância em “Extermínio: O Templo dos Ossos”. Em um memorial de cadáveres, um ateu convicto e um satanista se encontram, iniciando um teste de fé que se assemelha ao clássico de Hermes e Renato, “Padre Quemedo e o Filho do Capeta”.
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Essa tensão teológica, contudo, não se limita a um mero exercício intelectual. Em um mundo global marcado pelo medo do estrangeiro, o roteirista britânico Alex Garland utiliza o filme como uma alegoria sobre o Brexit e o isolamento cultural.
O fato de o Reino Unido ser o único território afetado pela nova onda de extermínio não é um detalhe aleatório. Representa um alerta sobre os perigos de se blindar do exterior, pois, na tentativa obsessiva de se proteger, a sociedade acaba se apodrecendo por dentro.
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Essa decomposição social se manifesta na perda da bússola moral, questionando a sacralidade da Bíblia e o que realmente define a fé.
O filme explora a indiferença através de perspectivas opostas. No caso do ateu Dr. Ian Kelson (Ralph Fiennes), o reconhecimento de sua pequenez diante do mundo gera uma indiferença voltada para o próprio “eu”. Por outro lado, o diabólico Jimmy Cristal (Jack O’Connell) manifesta essa indiferença em relação aos outros seres vivos.
Essa dualidade se concentra na busca por propósito e pertencimento, valores que faltam a Ian Kelson, mas que transbordam em Jimmy Cristal, que sustenta a convicção absoluta de ser o filho do capeta.
A jornada de Ian Kelson é sobre o desprendimento como caminho para a liberdade genuína. Essa liberdade se materializa em uma sequência icônica, onde Ralph Fiennes dança com a música “Duran Duran” completamente despido, com a supervisão do diretor de fotografia, Sean Bobbit.
Essa liberdade, no entanto, se conecta com os ensinamentos básicos de Cristo, transformando o desprendimento em uma predisposição para servir.
O filme se distancia do ritmo inquieto de “A Evolução” (2025), apresentando-se como um capítulo mais contemplativo, similar a um “Acústico MTV” da banda. A direção de Nia DaCosta, sob a influência do roteiro de Alex Garland, entrega uma obra que equilibra a perversidade de Jack O’Connell com a sensibilidade de Ralph Fiennes, resultando em uma narrativa que equilibra a tragédia com um toque de otimismo.
“Extermínio: O Templo dos Ossos” transcende o gênero de zumbis, oferecendo uma reflexão profunda sobre a memória, a empatia e a capacidade humana de ser melhor. O Templo dos Ossos não é apenas um depósito de mortos, mas um lembrete de que, embora não possamos mudar o passado, não temos o direito de ignorá-lo, pois o verdadeiro apodrecimento começa no esquecimento. O filme é, fundamentalmente, uma manifestação de fé na capacidade humana de ser algo mais do que um conjunto de ossos em uma pilha.
Autor(a):
Gabriel é economista e jornalista, trazendo análises claras sobre mercados financeiros, empreendedorismo e políticas econômicas. Sua habilidade de prever tendências e explicar dados complexos o torna referência para quem busca entender o mundo dos negócios.