Exposição “Debret em questão” no Museu do Ipiranga une passado e arte contemporânea até maio de 2024

A exposição “Debret em questão — olhares contemporâneos” no Museu do Ipiranga, em São Paulo, une obras de Jean-Baptiste Debret e releituras de 20 artistas, como Rosana Paulino

4 min de leitura

(Imagem de reprodução da internet).

Exposição “Debret em questão — olhares contemporâneos” no Museu do Ipiranga

A exposição “Debret em questão — olhares contemporâneos” foi inaugurada na terça-feira (25) no Museu do Ipiranga, em São Paulo. A mostra estabelece um diálogo entre obras do artista francês Jean-Baptiste Debret, do período do Brasil Império, e as releituras feitas por 20 artistas contemporâneos, incluindo Rosana Paulino e Jaime Lauriano.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Essa exposição é uma extensão do livro “Rever Debret” (Editora 34, 2023), escrito pelo pesquisador Jacques Leenhardt, que assina a curadoria junto com Gabriela Longman. A mostra é dividida em duas partes e apresenta 35 pranchas litográficas do livro “Voyage pittoresque et historique au Brésil”, publicado em Paris entre 1834 e 1839.

A visão crítica de Debret

Os curadores destacam que Debret rejeita a representação idealizada do Brasil em sua época, adotando uma abordagem quase antropológica. Ele observa e descreve o cotidiano com detalhes e uma postura crítica. Naquele período, suas obras foram rejeitadas pelo governo brasileiro por retratar a violência no Rio de Janeiro, então capital do Império.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Entre 1816 e 1831, Debret acompanhou a transformação da colônia portuguesa em império brasileiro. “Como se constrói uma nação é tema fundamental do livro. A vida no Rio de Janeiro, que era marcada pela presença dos escravos, é central”, afirmou Leenhardt.

Ele ressaltou que os escravos eram os verdadeiros trabalhadores que contribuíam para a construção do país.

LEIA TAMBÉM!

Releituras contemporâneas

A segunda parte da exposição apresenta as releituras contemporâneas, que questionam a narrativa hegemônica da história e os discursos dominantes. Artistas como Gê Viana, Dalton Paula e Isabel Löfgren & Patricia Goùvea trazem obras que refletem eventos contemporâneos relacionados à herança da escravização da população negra.

Gabriela Longman, curadora, destaca a diversidade das técnicas utilizadas, que incluem fotografia, vídeo, instalação, colagem digital, pintura e gravura. “Essa variedade de suportes e linguagens é um reflexo da arte contemporânea”, afirmou.

Interpretação do passado e suas implicações

Paulo Garcez Marins, diretor do museu, comentou que as exposições temporárias buscam interpretar o passado à luz das questões atuais. “Essa é a essência do pensamento histórico, uma reflexão sobre o passado que nos ajuda a entender as formas de violência e resistência que moldaram o Brasil”, explicou.

As obras de Debret foram amplamente reproduzidas em livros didáticos e outros meios, mas muitas vezes sem o contexto crítico original. Marins destacou que essa descontextualização transformou as representações de Debret em imagens nostálgicas da escravidão, refletindo uma sociedade que ainda enfrenta questões raciais.

Temas abordados na exposição

Os primeiros painéis da exposição abordam a questão indígena e a dominação sobre os povos originários, seguidos por imagens que retratam a vida dos escravos e os trabalhos a que eram submetidos. Longman enfatiza que as imagens revelam a diversidade das funções exercidas pelos escravos, que iam além dos clichês comuns.

Debret não hesitou em mostrar a violência e o protagonismo dos africanos escravizados nas suas obras, que tradicionalmente foram invisibilizados. “O tema da violência é central nas obras dos artistas contemporâneos na exposição”, afirmou Longman.

Obras inéditas e destaques

Entre as obras em destaque, estão as criações inéditas de Rosana Paulino e Jaime Lauriano. Paulino apresenta “Paraíso Tropical”, que revisita a ideia do Brasil como um paraíso idílico, revelando uma narrativa marcada pelo extrativismo. Lauriano, por sua vez, traz a instalação “Brasil através do espelho”, que aborda etnocídio e apropriação cultural.

Lauriano também expõe a série “Justiça e Barbárie”, composta por fotografias de violência veiculadas na mídia, questionando a dinâmica social brasileira. “Após os eventos recentes no Rio de Janeiro, essas imagens ganharam uma relevância ainda maior”, comentou Longman.

Outros artistas e a duração da exposição

A mostra conta com obras de diversos artistas, como Anna Bella Geiger, Bruno Weilemann, Cássio Vasconcellos, entre outros. Uma sala é dedicada a um desfile sobre Debret, realizado pela escola de samba em 1959, registrado pelo fotógrafo Marcel Gautherot.

A exposição ficará em cartaz até 17 de maio do próximo ano, de terça a domingo, das 10h às 17h.

Autor(a):

Ex-jogador de futebol profissional, Pedro Santana trocou os campos pela redação. Hoje, ele escreve análises detalhadas e bastidores de esportes, com um olhar único de quem já viveu o outro lado. Seus textos envolvem os leitores e criam discussões apaixonadas entre fãs.

Sair da versão mobile