“A Mala Vermelha”: Um grito de memória em tempos de silêncio! Eva Uviedo denuncia horror do regime em novo livro. Descubra a história chocante
Em um ano que marca uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina, a literatura emerge como um farol de memória. Em meio a um governo que busca reescrever o passado, apagando os 30 mil desaparecidos, a escritora Eva Uviedo lança “A Mala Vermelha”, uma obra que, através dos olhos de uma criança, reconstrói o horror, a desestruturação familiar e a violência cotidiana do regime.
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Em entrevista à Rádio Brasil de Fato, Eva Uviedo enfatiza a necessidade de confrontar essas questões em todas as áreas, não apenas na Argentina, onde a situação é mais evidente. “Vemos agora discursos que dizem ‘tem que ver’, mas não querem ver nada. É um horror”, afirma a autora, destacando a importância de abordar a brutalidade de atos como o assassinato de mulheres grávidas e crianças.
“A Mala Vermelha” nasceu de uma necessidade profunda, tanto pessoal quanto coletiva. Eva Uviedo, que chegou ao Brasil aos 10 anos com sua família exilada, demorou décadas para dar forma à experiência traumática da infância. A obra é construída a partir da perspectiva única que ela poderia oferecer, a de uma criança.
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A autora explica que o fato de ter vivido no Brasil, uma “terra acolhedora”, contribuiu para que a história fosse deixada de lado por muitos anos. No entanto, inspirada por outras publicações e pela emergência de um coletivo de filhos e filhas de exilados em Buenos Aires, ela decidiu abordar o assunto.
O livro retrata a rotina de uma família que, de repente, vê sua vida desmoronar.
A narrativa detalha a perseguição do pai, diretor de teatro, que perde oportunidades, tem o passaporte cassado e sofre perseguição. A casa da família é constantemente revistada por militares, um cenário que Eva Uviedo descreve com detalhes vívidos. “Minha casa era constantemente revistada por policiais e por militares.
Para mim ficaram muito presentes as botas. Chegavam pessoas numa casa que era assim uma delicadeza, era a casa da minha avó, e chegavam com as botas e tiravam tudo das gavetas e jogavam tudo no chão em busca de sei lá o quê”, relata a autora.
Eva Uviedo também destaca a brutalidade da censura na Argentina, citando o caso de um livro que abordava Cuba eletrolítica, censurado por causa do nome “Cuba”. “Eram homens mal educados. Ela não sabe se é policial, militar, civil ou do exército.
Ela não sabe nada. Ela sabe que aconteceu alguma coisa que quebrou a ordem. O livro inteiro tem isso: a criança com o olhar que é do que ela consegue interpretar e as imagens mostrando o que um adulto vai conseguir decodificar como violência”, explica.
O exílio, uma realidade para tantas famílias latino-americanas, é reconhecido hoje como uma violação de direitos humanos. O coletivo Hijos e Hijas de Exílio, em Buenos Aires, há 10 anos atua para manter viva a memória e a consciência política. “A minha geração de filhos de exilados hoje em dia consegue.
Existe o coletivo Hijos e Hijas de Exílio em Buenos Aires, que trata disso e participa ativamente. E é uma coisa assim: a gente não tá falando de passado só. É um coletivo que existe e eles procuram estar sempre presentes nas marchas de hoje”, afirma Eva Uviedo.
A autora enfatiza a importância de falar sobre o período com as novas gerações, destacando que a transmissão da memória é um gesto de continuidade. “Quando eu vejo ela falar sobre essas questões com os meus filhos, que hoje já são adultos e têm perguntas sobre aquele período, eu vejo o quanto que é importante continuar propagando isso, não só para crianças, para adultos, para poder continuar com essa conversa e ir levando adiante para que eles possam falar com a próxima geração do que são essas coisas, esses traumas”, conclui.
Autor(a):
Marcos Oliveira é um veterano na cobertura política, com mais de 15 anos de atuação em veículos renomados. Formado pela Universidade de Brasília, ele se especializou em análise política e jornalismo investigativo. Marcos é reconhecido por suas reportagens incisivas e comprometidas com a verdade.