EUA cortaram ajuda em 2025 e interromperam monitoramento de deslizamentos no Nepal

A medida atingiu um programa ativo desde 2010, enquanto o aquecimento acelera riscos de deslizamentos, enchentes e rompimento de lagos glaciais no país.

Consequências das enchentes no Nepal 3 de setembro de 2026 REUTERS/Navesh Chitrakar

O governo Trump cortou, em janeiro de 2025, o financiamento do SERVIR – Hindu Kush Himalaia, programa criado para identificar e monitorar áreas de risco de deslizamentos de terra no Nepal. A interrupção atingiu uma iniciativa que estava em andamento desde 2010 e encerrou parte dos esforços voltados à prevenção de desastres associados ao aquecimento do planeta.

O programa não teria conseguido evitar o desastre que matou mais de 1.100 pessoas, mas buscava criar condições para que sistemas de proteção fossem desenvolvidos no futuro. O aumento das temperaturas tem desestabilizado geleiras e ampliado a ameaça de deslizamentos, enchentes repentinas e inundações provocadas pelo rompimento de lagos glaciais.

Corte interrompe monitoramento de áreas de risco

O SERVIR – Hindu Kush Himalaia procurava localizar regiões vulneráveis a deslizamentos e outros eventos que se tornaram mais frequentes com as mudanças climáticas. A informação é de Birendra Bajracharya, ex – diretor do projeto.

Com a suspensão dos recursos, foi interrompido o trabalho para ampliar a “consciência situacional sobre deslizamentos de terra” relacionados a chuvas extremas. “A detecção de movimentos de encostas para previsões de deslizamentos também não pôde ser concluída”, afirmou Bajracharya.

Ele disse que recebeu o aviso sobre a paralisação das atividades por volta do final de janeiro de 2025. O contrato estava previsto para durar até 2026, mas a retirada dos recursos não permitiu encerrar os projetos de forma gradual nem transferi – los para outras organizações.

O projeto reunia a NASA, a USAID e o ICIMOD (Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas). O Projeto SERVIR é uma iniciativa global colaborativa liderada pela NASA e pela USAID, que transforma observações da Terra e inteligência artificial em serviços para o desenvolvimento sustentável.

Governo dos Estados Unidos afirma que ferramentas continuam ativas

Um porta – voz do Departamento de Estado disse à CNN que o corte de janeiro de 2025 ocorreu antes da reorganização da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). A mudança incluiu reduções de financiamento em muitos programas da agência, enquanto as ferramentas e os serviços do projeto permaneceram ativos por meio do ICIMOD.

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O porta – voz também afirmou que os Estados Unidos continuam apoiando programas de mitigação de enchentes no . Esse apoio ocorre por meio de uma concessão à OMM (Organização Meteorológica Mundial.

Também existe um acordo de trabalho entre a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica e o Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal. A parceria envolve alerta precoce de enchentes, treinamento para resposta a desastres e melhoria dos dados usados em previsões.

Bajracharya, porém, afirmou ter sido informado de que a suspensão ocorreu por causa de mudanças nas prioridades do em relação à ajuda externa e dos cortes na USAID. O governo americano congelou praticamente toda a assistência externa ao redor do mundo poucos dias depois de o presidente tomar posse e assinar uma ampla ordem executiva para suspender esse tipo de ajuda.

Enchentes e colapsos glaciais desafiam sistemas de alerta

Mais de 1.100 pessoas morreram quando um enorme deslizamento de geleira e rochas no alto do Himalaia desencadeou e a China em 26 de agosto. Mesmo que estivesse funcionando, o SERVIR provavelmente não teria emitido um alerta antecipado para aquelas enchentes, segundo Bajracharya.

Eventos de são raros, e os pesquisadores ainda não conseguem programar alarmes específicos para detectá – los. O projeto, no entanto, trabalhava na identificação de locais onde ocorrências desse tipo poderiam acontecer, o que ajudaria comunidades a jusante a se preparar melhor.

Algumas ferramentas de dados iniciadas pelo Projeto SERVIR no continuam funcionando. Entre elas estão a previsão de vazão dos principais rios da região e o monitoramento de incêndios florestais. Já o mapeamento de inundações foi interrompido.

Bajracharya e cientistas externos afirmam que o monitoramento de geleiras, de áreas sujeitas a deslizamentos e de inundações de rios é urgente. O Projeto SERVIR mais amplo ainda mantém programas em outras partes da Ásia, África e América Latina, mas os projetos no Nepal foram encerrados, de acordo com informações publicadas em seu site.

Cientistas defendem continuidade dos investimentos

Para Marco Tedesco, geofísico da Universidade de Columbia, criar sistemas de alerta precoce para deslizamentos, colapsos de geleiras e inundações por extravasamento glacial exige trabalho permanente. Ele criticou a decisão de interromper projetos que já estavam em andamento.

“Com certeza, retirar recursos de projetos existentes não é o caminho a seguir”, disse Tedesco. Segundo ele, ainda não há capacidade para alertar sobre um desastre como o que ocorreu recentemente no Nepal e na, mas é necessário desenvolver esse tipo de sistema porque a região está cada vez mais vulnerável.

“Sabíamos que isso poderia ter acontecido, e sabemos que vai acontecer novamente em algum momento”, afirmou Tedesco sobre o colapso glacial fatal. Ele também disse que a combinação entre riscos geológicos e alta densidade populacional faz com que mesmo áreas pequenas atingidas paguem um preço alto.

“É um problema de alocação de recursos”, declarou o geofísico. “E é um problema de investir para desenvolver as tecnologias adequadas.”