Estudo da UFSCar revela ligação entre gordura abdominal e incontinência urinária em mulheres

Estudo da UFSCar revela que gordura abdominal, especialmente visceral, aumenta risco de incontinência urinária em mulheres. Descubra mais sobre essa relação!

Estudo revela relação entre gordura abdominal e incontinência urinária em mulheres

O acúmulo de gordura na região abdominal, especialmente a gordura visceral — que se acumula entre os órgãos —, está associado a um aumento significativo do risco de incontinência urinária de esforço em mulheres. Essa conclusão é fruto de uma pesquisa realizada na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com apoio da Fapesp, que identificou essa área como a mais relacionada à perda involuntária de urina, superando a gordura corporal total.

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Os resultados do estudo, publicados no European Journal of Obstetrics & Gynecology and Reproductive Biology, indicam que a gordura visceral pode ser um fator mais determinante do que o peso corporal para explicar essa condição. A incontinência urinária de esforço é caracterizada pela perda involuntária de urina em situações cotidianas, como tossir, rir, carregar peso ou praticar exercícios.

A professora Patricia Driusso, da UFSCar e orientadora do estudo, explica que essa perda ocorre quando a pressão abdominal aumenta e o assoalho pélvico não consegue suportar.

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Incontinência urinária não é exclusiva de mulheres mais velhas

Embora muitas vezes a incontinência urinária seja associada ao envelhecimento, essa condição não é restrita a mulheres mais velhas. “Ela pode ocorrer em mulheres de todas as idades, incluindo as mais jovens. A musculatura do assoalho pélvico é pouco exercitada ao longo da vida e, sem o treinamento adequado, pode se tornar fraca e perder sua função”, afirma Driusso.

O estudo faz parte de uma pesquisa mais ampla sobre disfunções do assoalho pélvico, que abrange também incontinência fecal, prolapso de órgãos pélvicos, disfunções sexuais e dor pélvica crônica.

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Nesta fase da pesquisa, os cientistas focaram na relação entre a distribuição da gordura corporal e a perda urinária. A fisioterapeuta Ana Jéssica dos Santos Sousa, primeira autora do artigo, conduziu o estudo em parceria com a Western Michigan University, nos Estados Unidos.

Foram avaliadas 99 mulheres entre 18 e 49 anos, recrutadas em São Carlos, interior de São Paulo. O foco no público feminino se deve ao fato de que a incontinência urinária é significativamente mais comum entre elas.

Resultados e implicações do estudo

As participantes não precisavam ter um diagnóstico prévio de incontinência e apresentavam perfis variados, permitindo comparações. Elas realizaram um exame chamado DXA, considerado padrão-ouro para análise da composição corporal, que mede não apenas a quantidade total de gordura, mas também sua distribuição em áreas específicas do corpo.

Além disso, foram aplicados questionários validados para identificar a presença de incontinência e avaliar o impacto dos sintomas na qualidade de vida.

Os dados mostraram que cerca de 39,4% das participantes relataram episódios de perda urinária, um número que condiz com estimativas internacionais. “Esse problema é frequentemente subnotificado, mas mesmo episódios isolados de perda urinária indicam que o mecanismo de continência pode não estar funcionando adequadamente”, alerta Driusso, ressaltando que muitas mulheres acabam normalizando esses episódios.

O papel da gordura visceral

Os resultados indicaram que mulheres com maior quantidade de gordura corporal apresentavam maior probabilidade de incontinência. No entanto, o principal achado foi a influência da gordura visceral, que aumentou em cerca de 51% a probabilidade de incontinência urinária de esforço. “Esse foi o fator mais fortemente associado.

Inicialmente, acreditávamos que a gordura na região ginecológica teria maior influência, mas o que se destacou foi a gordura visceral”, afirma Driusso.

A explicação para isso envolve diferentes mecanismos. O primeiro é mecânico: a gordura visceral, ao se acumular na cavidade abdominal, aumenta a pressão sobre os órgãos internos e sobrecarrega o assoalho pélvico, que sustenta a bexiga e controla a saída de urina. “Essa sobrecarga constante pode levar à fadiga muscular e à diminuição da eficiência”, explica a pesquisadora.

O segundo mecanismo é metabólico, pois a gordura visceral é metabolicamente ativa e libera substâncias inflamatórias que podem comprometer a qualidade muscular.

Prevenção e tratamento da incontinência urinária

De acordo com Driusso, o estudo é relevante ao mostrar que não apenas o excesso de peso, mas também a distribuição da gordura no corpo pode influenciar o desenvolvimento da incontinência, mesmo em mulheres com IMC considerado normal. Contudo, por se tratar de um estudo transversal, os pesquisadores não podem afirmar uma relação de causa e efeito, apenas que existe uma associação entre os fatores.

As descobertas ajudam a direcionar estratégias de prevenção e tratamento. Uma das principais abordagens é o fortalecimento da musculatura do assoalho pélvico por meio da fisioterapia. “Há evidências de que o treinamento dessa musculatura é eficaz e é considerado o padrão-ouro para tratar a incontinência urinária de esforço”, afirma Driusso.

O acompanhamento profissional é fundamental, pois muitas mulheres não conseguem contrair esses músculos corretamente sem orientação.

O treinamento adequado pode resultar em melhorias significativas em cerca de três meses, mas, assim como qualquer grupo muscular, o assoalho pélvico precisa ser exercitado continuamente. “Se o treinamento for interrompido, a força é perdida. É um cuidado que deve ser mantido ao longo da vida”, conclui.

Os pesquisadores planejam avançar na investigação, incluindo o uso de ressonância magnética para avaliar a presença de gordura infiltrada nos músculos e estudar se mulheres com obesidade podem se beneficiar de protocolos específicos de treinamento.

Para Driusso, os resultados ressaltam a importância de discutir abertamente a incontinência urinária, que ainda é cercada de tabus. “Essa condição impacta a qualidade de vida, limita atividades e muitas vezes é silenciosa. Contudo, existem tratamentos e formas de prevenção.

O essencial é que as mulheres saibam que não precisam conviver com isso.”