Estudantes da Universidade Central da Venezuela desafiam o medo e tomam as ruas de Caracas em protesto histórico. O que motivou essa nova mobilização?
Em fevereiro de 2026, centenas de estudantes da Universidade Central da Venezuela, localizada em Caracas, realizaram um protesto que surpreendeu a todos. A manifestação saiu do campus e tomou uma rua próxima, simbolizando uma nova etapa de mobilização social no país.
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Antes da operação militar liderada pelos Estados Unidos, o ativismo estudantil fora do ambiente universitário era considerado extremamente arriscado na Venezuela. Permanecer dentro da universidade oferecia uma certa proteção, enquanto aqueles que se aventuravam nas ruas enfrentavam o risco de serem agredidos, detidos ou sofrerem consequências ainda mais graves.
Organizações internacionais, como as Nações Unidas, já haviam denunciado casos de tortura contra detidos no país, incluindo práticas como choques elétricos e privação de sono. Assim, quando os estudantes, acompanhados por familiares de presos políticos, deixaram o campus entoando o grito “libertem todos”, a ação foi interpretada como um claro desafio ao clima de medo que predominou por anos.
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Paola Carrillo, de 22 anos e membro da união estudantil, expressou à multidão: “Nasci em 2003 e tudo que eu conhecia era o medo… até hoje. Estamos lutando pela liberdade que queremos.”
Há cerca de dez anos, estudantes universitários venezuelanos, muitos deles feridos após confrontos com as forças de segurança, foram protagonistas de grandes protestos contra o governo. No entanto, essas manifestações diminuíram devido à repressão estatal, que incluiu prisões de estudantes e professores, além da atuação de grupos armados alinhados ao governo, resultando em centenas de mortes.
A grave crise econômica também forçou muitos jovens a abandonarem os estudos em busca de trabalho, enfraquecendo o movimento estudantil. Agora, uma nova geração de ativistas voltou às ruas.
Dez estudantes de quatro universidades do país relataram à Reuters que veem uma esperança real após a queda de Maduro, mesmo com partes do antigo governo ainda em posições de poder. Eles afirmam sentir-se mais seguros para se expressar do que em qualquer outro momento recente.
Com idades entre 22 e 27 anos, esses jovens cresceram sob o governo socialista do “Chavismo”, que começou com Hugo Chávez em 1999. Carrillo, que está no último ano do curso de Direito, disse: “Eu nunca tinha participado de algo assim antes, e acho que agora é o momento, ainda que seja assustador.”
Os estudantes afirmam que suas reivindicações vão além da libertação de presos políticos. Eles pedem a revogação de leis contra discurso de ódio e terrorismo, que consideram instrumentos de opressão, além de eleições livres e justas e a “reinstitucionalização” das instituições estatais que, segundo eles, foram destruídas pelo partido socialista.
Também exigem orçamentos maiores para as universidades e aumentos salariais para os professores, que atualmente recebem cerca de US$ 4 por mês.
Miguelangel Suarez, de 26 anos, presidente da federação estudantil da Universidade Central da Venezuela, relatou ter confrontado Delcy Rodríguez após um evento no campus em janeiro, um momento que ganhou destaque nas redes sociais. “Eu disse ao grupo: Olhem, vou confrontar Delcy Rodríguez.
Cerca de 20 outros se levantaram e decidiram ir comigo. Isso diz muito sobre como o paradigma mudou desde 3 de janeiro”, afirmou Suarez, referindo-se ao aumento da confiança dos estudantes após a queda de Maduro.
Estudantes de várias regiões da Venezuela expressaram gratidão pela saída de Maduro, mas mostraram cautela em relação aos Estados Unidos, desejando que a mudança tivesse ocorrido de forma diferente. Maikel Carracedo, de 27 anos, estudante de Direito da Universidade de Zulia, recordou o momento em que soube da operação militar americana: “A primeira coisa que fiz foi tomar uma xícara de café.
Meu primeiro café em liberdade.” Apesar da empolgação com o possível fim da era chavista, Carracedo e outros estudantes manifestaram desconforto com a forma como a mudança ocorreu.
“Esperávamos que a mudança viesse de forma muito mais democrática e pacífica”, disse Carracedo. “Ninguém quer que seu país seja bombardeado ou atacado, mas foi isso que aconteceu. A maioria das pessoas não se feriu, foi algo cirúrgico. E fico genuinamente feliz porque a saída do ditador foi bastante significativa.” Paola Carrillo reforçou que, em geral, os jovens venezuelanos “teriam preferido chegar a esse ponto de outra maneira”.
Para alguns jovens, a libertação de detidos foi uma experiência pessoal e transformadora. Jose Castellanos, de 22 anos, estudante de Economia na Universidade Lisandro Alvarado, foi detido em outubro de 2025 e passou quase quatro meses preso sob acusações de terrorismo, incitação ao ódio e traição, que ele nega.
Castellanos foi preso junto com seu irmão e sua mãe, todos libertados nas semanas seguintes. “Estar na prisão me fez amadurecer. Isso me deu mais coragem e força para lutar pela liberdade do país e pela democracia”, afirmou Castellanos durante uma marcha em Barquisimeto.
Segundo o líder estudantil Suarez, pelo menos dois estudantes da Universidade Central da Venezuela e dois professores também foram libertados em fevereiro. Entre eles está Jesus Armas, professor e ativista de direitos humanos, preso em dezembro de 2024 e acusado de terrorismo, uma acusação que ele também nega.
Luigi Lombardo, de 26 anos, estudante de Educação em Ciências Sociais, descreveu a experiência como uma transição pessoal. “Estamos passando de um sentimento de incerteza e medo de falar para nos sentirmos mais livres”, disse ele.
Lombardo destacou que essa liberdade inclui a capacidade de expressar opiniões e debater questões como o financiamento das universidades e salários dignos para professores, algo que era praticamente impossível antes. “Agora há espaço para expressar esse descontentamento… e entender que o país está caminhando para a reconciliação”, concluiu.
Autor(a):
Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.