O debate sobre como enfrentar o negacionismo climático e a crise ambiental concentrou-se na necessidade de superar o capitalismo, com o ecossocialismo emergindo como um horizonte político viável. A discussão, realizada em Porto Alegre no dia 28, reuniu uma diversidade de vozes – lideranças de movimentos sociais, pesquisadores e ativistas – para analisar a complexidade da crise e propor alternativas.
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Uma das principais linhas de argumentação foi a crítica ao modelo capitalista como raiz da crise climática e do negacionismo. Os participantes enfatizaram a relação entre a destruição ambiental, a exploração de recursos naturais, a concentração fundiária e as disputas geopolíticas.
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O pensador marxista francês Michael Löwy definiu o conceito central do debate: o ecossocialismo, destacando que “uma ecologia que não é socialista não tem futuro, e que um socialismo que não é ecológico não está à altura dos desafios do século XXI”.
A proposta, segundo Löwy, não é apenas um capítulo do programa, mas o eixo estruturante de uma alternativa ao capitalismo vigente.
A análise do modelo brasileiro apontou o agronegócio como um vetor de destruição ambiental e uma base de sustentação para forças de extrema direita. A utilização intensiva de agrotóxicos, o avanço das monoculturas e o desmatamento foram criticados, com a defesa de uma reforma agrária radical baseada na agricultura camponesa, focada na soberania alimentar e na produção orgânica.
Essa reforma, segundo o dirigente do MST Lara Rodrigues, deve ser acompanhada de ações para combater o negacionismo e o avanço da extrema direita, reconhecendo que “derrotar o fascismo é fundamental para avançar no combate ao negacionismo climático”.
O debate também incorporou perspectivas internacionais, com Omar Aziki, representando a Attac/CADTM Marrocos, destacando a apropriação de terras por empresas multinacionais e instituições como o Banco Mundial e o FMI, especialmente no continente africano.
Aziki enfatizou a necessidade de reconstruir um movimento internacional em torno da soberania alimentar, da recuperação de terras e da proteção dos recursos hídricos, diante de uma crise marcada pela escassez de água e pela crise sistêmica do capitalismo.
Zé Corrêa, representante do Fórum Amazônico, alertou para a aceleração do aquecimento global e a proximidade de sistemas naturais em colapso. Ele criticou a dependência de cadeias produtivas internacionais e defendeu maior autonomia dos povos na organização econômica, ressaltando que “não há transição energética no capitalismo”.
Jairo Bolter, dirigente sindical e professor da Ufrgs, analisou a crise a partir da vivência no meio rural, apontando o envelhecimento do campo e a falta de sucessão nas propriedades, e defendendo o apoio à produção de alimentos e práticas sustentáveis.
Após as exposições, os debatedores Annie Hsiou e Jairo Bolter reforçaram a necessidade de incorporar o ecossocialismo como diretriz política, defendendo a ampliação de políticas de emergência climática e a transformação dos meios de produção.
O encerramento do debate ressaltou a convergência das análises apresentadas, com a esperança de que “não há transição energética no capitalismo” e que “um novo tempo pode chegar”.
Autor(a):
Ambientalista desde sempre, Bianca Lemos se dedica a reportagens que inspiram mudanças e conscientizam sobre as questões ambientais. Com uma abordagem sensível e dados bem fundamentados, seus textos chamam a atenção para a urgência do cuidado com o planeta.
