Detetives usam “armadilha do chiclete” para resolver assassinatos de 1980 e 1984 em Washington

Detetives usam tecnologia moderna para resolver assassinatos antigos em Washington. Descubra como uma armadilha inusitada levou à captura de um criminoso.

Detetives Desvendam Casos Antigos com Tecnologia Moderna

Susan Logothetti e dois colegas estavam em frente a uma casa amarela em Everett, Washington, nos Estados Unidos, usando camisetas e segurando panfletos de uma empresa de chicletes. Mitchell Gaff abriu a porta vestindo calças de pijama e, ao receber o trio, concordou em participar de um teste de sabor, provando diferentes tipos de chiclete com entusiasmo, conforme Logothetti recorda o encontro de janeiro de 2024.

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Quando chegou a hora de Gaff experimentar um novo sabor, um colega estendeu um pequeno recipiente. “Lembro de vê-lo cuspir o primeiro pedaço de chiclete no ramequim e ver a saliva, e foi muito difícil para mim conter minha empolgação”, contou Logothetti à CNN.

Sem saber, Gaff havia fornecido a três detetives disfarçados o DNA necessário para confirmar sua ligação a um estupro e assassinato de 1984, de acordo com um mandado de causa provável apresentado em março. A “armadilha do chiclete” é mencionada no mandado.

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Gaff, de 68 anos, admitiu em 16 de abril o assassinato de Judy Weaver e também de Susan Vesey, quatro anos antes, segundo documentos judiciais. Ele pode enfrentar prisão perpétua na sentença marcada para quarta-feira (13). Os assassinatos de ambas as mulheres no estado de Washington, ocorridos em 1980 e 1984, eram considerados casos não relacionados na época, mas levaram a suspeitos em cada caso, sem resultar em acusações.

Avanços na Investigação e Tecnologia de DNA

Quatro décadas após o assassinato de Weaver, cientistas forenses descobriram que o DNA encontrado no corpo dela era compatível com evidências coletadas, conforme afirmam os documentos judiciais. Essa descoberta e a eventual conexão entre os dois assassinatos representaram um avanço significativo nas investigações, demonstrando a importância da tecnologia moderna de DNA na resolução de casos antigos.

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Além disso, a identificação do assassino trouxe alívio para famílias que viveram sob a sombra da suspeita por tanto tempo e permitiu que uma mulher atacada por Gaff antes dos assassinatos pudesse iniciar seu processo de cura.

Para que o encerramento dos casos de Weaver e Vesey ocorresse, “só precisávamos que a ciência alcançasse”, disse Logothetti. Vesey, que tinha 21 anos, era casada e mãe de dois filhos pequenos quando foi assassinada em julho de 1980. Gaff, em seu depoimento, admitiu que estava “batendo em portas aleatórias” e encontrou a porta da vítima destrancada, levando a um ataque brutal.

Quatro anos depois, Gaff atacou Weaver, uma mãe de 42 anos, em seu quarto, onde ele tentou destruir evidências ao incendiar o local.

Desdobramentos e Conexões entre os Casos

Gaff afirmou que não conhecia nenhuma das mulheres antes de cada ataque. A advogada de defesa de Gaff, Heather Wolfenbarger, não comentou sobre o caso. Na época dos assassinatos, o perfil de DNA ainda não era uma ferramenta forense amplamente utilizada.

No entanto, a polícia teve a previsão de contatar um laboratório para obter amostras vaginais no caso de Weaver, levando à submissão da evidência poucas horas após sua morte, conforme os documentos judiciais.

O arquivo do caso de Weaver, que Logothetti herdou de seus antecessores no Departamento de Polícia de Everett, estava repleto de teorias absurdas sobre sua morte. O namorado de Weaver, que era o principal suspeito, faleceu em 1994. O surgimento do perfil de DNA levou a polícia a reexaminar o caso de Weaver em 2020.

Lisa Collins, cientista forense da Patrulha Estadual de Washington, destacou que novos softwares e avanços em genealogia genética são marcos recentes na tecnologia de DNA que possibilitaram progressos em casos antigos.

Confirmação e Justiça para as Vítimas

Collins, que assumiu o caso de Weaver em 2003, explicou que os cientistas forenses podem usar um software chamado STRmix para identificar perfis a partir de pequenas quantidades de DNA. No caso de Weaver, uma das amarras encontradas em seu corpo continha DNA dela, do namorado e uma quantidade menor de um terceiro indivíduo desconhecido.

A cientista forense Mary Knowlton utilizou o STRmix para isolar o DNA de Weaver e do namorado, restringindo a amostra ao contribuinte misterioso. O perfil foi inserido no Combined DNA Index System (CODIS) em novembro de 2023, resultando em uma correspondência com Gaff, que estava no banco de dados por estupros violentos de duas irmãs adolescentes em 1984.

Após a correspondência, os detetives precisavam de outra amostra de DNA para confirmá-la. Logothetti mencionou que os detetives frequentemente seguem suspeitos e coletam bitucas de cigarro ou restos de bebidas para obter amostras secundárias. A polícia fez vigilância na casa de Gaff, que raramente saía, exceto para ir a um supermercado próximo.

Foi então que surgiu a ideia da “armadilha do chiclete”, que Logothetti achou inusitada na época. O DNA extraído do chiclete de Gaff coincidiu com o encontrado nas amostras de Weaver, confirmando sua ligação ao crime.

Impacto e Reflexões sobre os Crimes

Conectar Gaff ao assassinato de Vesey levou mais tempo. Após a associação do DNA de Gaff ao caso de Weaver, o marido de Vesey, Ken, deixou uma mensagem para a polícia informando que seu irmão, um suspeito no caso, havia falecido. Ken, que encontrou o corpo da esposa, tinha apenas 23 anos na época.

Logothetti, que começou a investigar homicídios de casos antigos em 2022, não conhecia o caso de Susan Vesey. Ao conversar com Ken, percebeu “semelhanças impressionantes” entre os casos.

Logothetti enviou itens da cena do assassinato de Vesey para análise, e um pedaço de corda cortado de seu corpo confirmou que o DNA era de Gaff. “O que me parece relevante é o quão sofisticados os cientistas forenses se tornaram, e quão sofisticada é a tecnologia de DNA que permite aos cientistas fazerem o que fazem”, afirmou Craig Matheson, advogado de acusação no caso Gaff. “As capacidades atuais são muito mais significativas do que há 20 anos.”

Histórias de Sobrevivência e Justiça

Gaff já havia sido condenado por um ataque em 1979, quando tentou estuprar Jacalyn O’Brien. Ele foi condenado a cinco anos de liberdade condicional e um ano de trabalho comunitário. O’Brien, agora com 76 anos, ainda carrega as marcas emocionais do ataque.

Ela acompanhou os julgamentos de Gaff remotamente, mas se sentiu envergonhada por não ter comparecido pessoalmente. No mês passado, após a confissão de Gaff, ela decidiu estar presente no tribunal.

O’Brien relembrou o ataque e como conseguiu escapar. Desde então, ela não consegue manter a TV ou o rádio ligados em casa, pois precisa ouvir cada pequeno ruído. “Sinto muito por não ter sido capaz de matá-lo no dia em que ele me atacou”, disse O’Brien.

Desde que Logothetti retornou a ligação de Ken Vesey, eles se comunicavam semanalmente, o que ajudou na cura da família. “Estou feliz que as famílias finalmente saibam a verdade, porque isso é como um câncer em sua família que se espalha”, concluiu Logothetti.