
As empresas no Brasil enfrentam um período de intensa pressão financeira, caracterizado por uma combinação de juros altos, crédito restrito e aumento do endividamento. Esse contexto tem afetado o fluxo de caixa das companhias, resultando em um número recorde de pedidos de recuperação judicial, que alcançou 2.466 processos em 2025, conforme pesquisa da Serasa Experian.
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A taxa Selic, que se manteve em 15% ao ano durante grande parte do ano passado, representa um fator crucial nesse cenário, sendo a mais alta em quase duas décadas.
Com o custo do crédito elevado, as empresas que se endividaram durante o período de juros baixos agora enfrentam dificuldades financeiras. Felipe Granito, sócio do Granito Boneli Advogados e especialista em recuperação empresarial, destaca que essa mudança de cenário deixou muitas companhias em uma situação de alavancagem financeira insustentável.
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Ele ressalta a relação direta entre os juros altos e o aumento do endividamento.
Um levantamento da Serasa Experian revelou que, entre o início de 2025 e julho, 8 milhões de CNPJs brasileiros estavam negativados, com um aumento de 200 mil negócios em comparação ao mês anterior. Granito afirma que a manutenção de juros elevados por um período prolongado gera um impacto significativo em momentos de crise financeira, além de outros fatores geopolíticos e macroeconômicos que contribuem para esse cenário.
O endividamento das empresas de capital aberto no Brasil também ilustra a gravidade da situação. Segundo Einar Rivero, CEO da Elos Ayta, o total de dívidas chega a R$ 2,2 trilhões, excluindo a Petrobras, o que representa um aumento considerável em cinco anos.
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, explica que o encarecimento do crédito, essencial para financiar operações, é um dos principais mecanismos que afetam a atividade empresarial.
Além da alta dos juros, Granito destaca a dificuldade de acesso ao crédito, especialmente para pequenas empresas. Ele observa que essas companhias enfrentam limitações significativas em relação às boas linhas de crédito disponíveis. Sem opções de financiamento alternativas, como emissão de dívida privada ou captação no mercado de capitais, elas dependem do crédito bancário tradicional, que costuma ser mais caro e com prazos mais curtos.
Para muitas pequenas empresas, a recuperação judicial pode ser uma solução inviável. Granito explica que, ao solicitar recuperação judicial, essas empresas enfrentam a perda de todos os créditos no mercado, o que pode levar à paralisação das operações.
O setor de serviços e o varejo estão entre os mais afetados, refletindo a combinação de altos custos de crédito e consumidores com menor poder aquisitivo.
Agostini sugere que o caminho para as pequenas e médias empresas envolve uma mudança estrutural no acesso ao capital, com a melhoria da governança corporativa como uma forma de facilitar a entrada no mercado de capitais. Embora haja um início de cortes na Selic, os efeitos sobre o volume de recuperações podem demorar a se manifestar, uma vez que a transmissão da política monetária para a economia geralmente leva entre seis e nove meses para se consolidar.
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Autor(a):
Apaixonada por cinema, música e literatura, Júlia Mendes é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de São Paulo. Com uma década de experiência, ela já entrevistou artistas de renome e cobriu grandes festivais internacionais. Quando não está escrevendo, Júlia é vista em mostras de cinema ou explorando novas bandas independentes.