Déficit de Armazenagem de Grãos no Brasil Aumenta
O déficit de armazenagem de grãos no Brasil voltou a crescer, evidenciando um problema que se tornou estrutural para o setor agropecuário. Em 2025, a diferença entre a produção e a capacidade de armazenamento atingiu 134,1 milhões de toneladas.
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Com a previsão de uma safra recorde para 2025/26, esse déficit já aumentou em mais de 1 milhão de toneladas, conforme atualização de Elisângela Lopes, assessora técnica da Confederação Nacional da Agricultura (CNA).
Atualmente, o Brasil possui capacidade para armazenar apenas 61,7% da produção de grãos, uma leve queda em relação aos 61,9% do ano anterior. Esse dado é alarmante, considerando que em 2005 a capacidade de armazenagem era de 92,9% do total produzido.
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Desafios na Expansão da Armazenagem
Elisângela destaca que o crescimento da safra não acompanha a expansão do sistema de armazenagem. Em anos de colheita abundante, como o atual, essa disparidade gera pressão sobre o escoamento e os custos logísticos. A expectativa de uma nova safra recorde em 2025/26 tende a agravar essa situação.
Apesar de investimentos em silos e armazéns, a capacidade de armazenamento ainda está aquém do crescimento da produção, especialmente nas regiões agrícolas em expansão, como Matopiba, que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Enquanto o déficit nacional é de 61,7%, em Matopiba, a capacidade cobre apenas 44,1% da produção.
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Impactos no Escoamento da Soja
A pressão sobre o escoamento da soja é particularmente intensa, pois uma parte significativa da produção necessita de armazenamento imediato. A soja é mais suscetível a danos do que o milho, o que leva os produtores a transferirem os grãos para caminhões, que funcionam como “armazéns improvisados”.
Isso aumenta a demanda por transporte em um curto espaço de tempo.
Quando a colheita ocorre em um período concentrado, o preço do frete tende a subir. Em janeiro de 2025, por exemplo, o frete aumentou 60% em poucos dias devido à falta de espaço para estocar, segundo o EsalqLog da USP. Além do custo logístico, a ausência de armazenagem adequada compromete a qualidade dos grãos, aumentando os riscos de perdas e avarias.
Desafios para o Produtor Médio
Uma pesquisa recente da CNA com 1.065 produtores rurais revelou que a armazenagem nas propriedades ainda é limitada. Entre os principais obstáculos estão as linhas de crédito com juros altos e prazos curtos, além da falta de conhecimento dos produtores sobre gestão de armazéns.
A capacidade de armazenagem nas fazendas está estagnada desde 2018, variando entre 16% e 17% do total. Em comparação, nos Estados Unidos, esse percentual chega a 54%, proporcionando aos produtores maior autonomia na comercialização. Os grandes produtores, mais integrados às tradings, conseguem mitigar parte do problema, enquanto os médios enfrentam mais dificuldades.
Modelos de Armazenagem e Soluções Emergenciais
No Sul e Sudeste, onde a agricultura é mais desenvolvida, produtores médios e pequenos costumam se organizar em cooperativas ou condomínios de armazéns, diluindo custos e ampliando o acesso à infraestrutura. Esse modelo começa a ganhar interesse também em Mato Grosso.
Como solução de curto prazo, o silo bag tem sido amplamente utilizado. Embora funcione melhor em regiões com clima favorável, apresenta restrições em áreas mais úmidas. O material é projetado para uso único, mas muitos produtores o reutilizam, o que pode aumentar os riscos de deterioração dos grãos.
Produtores sugerem a criação de linhas de crédito específicas para a tecnologia de silo bag, especialmente para a aquisição de equipamentos que custam entre R$ 100 mil e R$ 150 mil. No entanto, ainda não há dados consolidados sobre o número de silo bags no Brasil, o que dificulta o acompanhamento dessa prática.
