
O debate sobre Memória, verdade e Justiça para os povos indígenas marcou o primeiro dia do evento. A iniciativa foi organizada pelo Fórum Memória, Verdade, Reparação Integral, Não Repetição e Justiça para os Povos Indígenas.
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Durante o encontro, foi discutida a relevância do estudo e da pesquisa para investigar documentos e relatos que expõem a violência e o apagamento sofridos pelos povos indígenas, desde o período da colonização brasileira até os dias atuais.
Um ponto central abordado foi o Relatório da Verdade, concluído em 2014, que aponta a estimativa de que pelo menos 8 mil indígenas foram vítimas de violência durante o governo militar.
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A plenária também reforçou a importância de estabelecer uma Comissão Nacional Indígena da Verdade. Marlon Alberto Weichert, representante da 6ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal (MPF), destacou que a criação dessa comissão é vital para afirmar a centralidade dos povos indígenas.
Para o representante do MPF, é fundamental que a sociedade não-indígena tenha acesso à versão verdadeira da história, aquela contada por quem sofreu e ainda sofre com as violações. Ele enfatizou que a reparação integral começa com a produção da verdade.
Weichert ressaltou que é preciso desconstruir mentiras, como a ideia de um marco temporal para as violações de direitos ou a suposta incapacidade dos modos de vida indígenas. Uma minuta com a proposta de criação da Comissão foi entregue ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI) em outubro de 2025.
O MPI manifestou que continuará os diálogos necessários para que esse passado seja reconhecido e reparado. O ministério se comprometeu a combater a violência que, segundo eles, ainda se manifesta no presente.
A pesquisadora indígena Braulina Baniwa compartilhou sua metodologia de escuta, focada em ouvir povos afetados pela repressão e os desafios de realizar pesquisas em territórios tradicionais. Ela observou que, diferentemente de antes, agora são parentes construindo o conhecimento com parentes.
Baniwa sublinhou a importância de documentar a violência e as violações de direitos humanos para gerar propostas contra a opressão. Ela alertou que os pensadores precisam levar essa narrativa para que o Judiciário, tanto nacional quanto internacional, não construa um relato sem a essência indígena.
Durante o evento, foram ouvidos relatos de representantes de territórios indígenas sobre violações de direitos causadas pelo desmatamento e pela mineração ao longo dos séculos. O Cacique Agamenon Toá, do povo Kraunã, de Alagoas, lamentou o apagamento cultural devido à construção de hidrelétricas no Rio São Francisco, mencionando que cemitérios foram submersos.
Daiara Tukano, do povo Tukano, dos Amazonas, trouxe à tona a opressão sofrida com a chegada da igreja católica durante a invasão do Brasil. Ela denunciou uma política que visou proibir línguas e torturar crianças, ressaltando a necessidade de registrar essas experiências históricas familiares.
A programação oficial do Acampamento Terra Livre (ATL) teve início na segunda-feira (6) e se estenderá até o dia 11 de abril. Nesta terça-feira (7), a primeira marcha de mobilização ocorreu com o tema “Congresso inimigo dos povos: Nosso futuro não está à venda”.
O ATL, organizado pela Articulação de Povos Indígenas do Brasil (Apib), chega à sua 22ª edição com o tema “Nosso futuro não está à venda: A resposta somos nós”. A mobilização visa reunir milhares de indígenas das cinco regiões do país.
A programação deste ano está estruturada em eixos temáticos para mobilizar a comunidade diante da crise climática e das propostas legislativas. O tema reforça a resistência contra interesses econômicos e institucionais que ameaçam os modos de vida tradicionais e os territórios.
Ao longo dos dias, haverá mesas de discussão para ouvir as demandas regionais, além de plenárias e marchas públicas até o Congresso Nacional, com foco na demarcação de Terras Indígenas.
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Autor(a):
Apaixonada por cinema, música e literatura, Júlia Mendes é formada em Jornalismo pela Universidade Federal de São Paulo. Com uma década de experiência, ela já entrevistou artistas de renome e cobriu grandes festivais internacionais. Quando não está escrevendo, Júlia é vista em mostras de cinema ou explorando novas bandas independentes.