Em 2 de abril de 1993, sob o governo de Itamar Franco, a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), localizada no sul fluminense, foi privatizada após mais de 50 anos de gestão estatal. Este evento, que completa 62 anos da instauração do golpe militar de 31 de março, reacendeu um capítulo controverso da história nacional, marcado por vigilância e repressão contra os trabalhadores da empresa.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
O Ministério Público Federal (MPF), pesquisadores e a sociedade civil têm se dedicado a elucidar as circunstâncias que cercaram essa privatização, buscando justiça para as vítimas e preservando a memória.
A professora Alejandra Estevez, da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora do Museu do Trabalho e dos Direitos Humanos, destaca a importância da mediação do MPF no acesso aos documentos da CSN. Durante anos, ela tentou obter informações diretamente da empresa, sem sucesso. “Sem a mediação do Ministério Público, a gente não consegue o acesso”, lamenta.
CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE
Em novembro de 2025, uma ação civil pública movida pelo MPF em 2017, julgada pela 1ª Vara Federal de Volta Redonda, determinou que a CSN entregasse os documentos do período pré-privatização ao Arquivo Nacional.
Após quatro meses da decisão judicial, a previsão de acesso aos arquivos ainda não se concretizou. O MPF informa que está em fase de organização de um cronograma de trabalho, e o Arquivo Nacional (AN) agendará uma nova visita técnica para abril, visando elaborar esse cronograma.
O AN esclarece que a CSN mantém uma coordenação exclusiva sobre os documentos, justificando a necessidade de preservação e integridade da documentação histórica. No entanto, a legislação e a decisão judicial exigem que a documentação pública esteja sob a custódia do Arquivo Nacional.
Os documentos do período em que a CSN era uma empresa estatal estão distribuídos em quatro acervos, mas apenas um deles, o Centro de Documentação (Cedoc), funciona como tal. O Cedoc é o arquivo mais bem preservado, contendo fichas funcionais e documentação cotidiana, acessível aos próprios funcionários que solicitam aposentadoria.
A pesquisadora Estevez desenvolveu um estudo no período de 2021 a 2023, como integrante do Centro de Apoio à Justiça e Entidades do Ministério Público Federal (Caaf/Unifesp), utilizando o material do Cedoc.
O estudo de Estevez reúne informações de outras empresas que colaboraram com o regime militar, como Aracruz, Fiat e Petrobras. A Petrobras já teve seus documentos destinados ao Arquivo Nacional. A abertura do acesso a essa documentação pouco catalogada foi liberada pela primeira vez no âmbito da Comissão da Verdade de Volta Redonda, ocorrida no período de 2014-2015, em resposta a um pedido do MPF.
Pesquisadores vinculados a universidades públicas identificaram um volume de 25 mil pastas de documentos, que foram inicialmente catalogados de forma preliminar.
A catalogação parcial do material está disponível na página do Centro de Memória Fluminense, mas os pesquisadores não conseguem acesso à documentação completa. A expectativa de Estevez é reverter essa situação com o amparo da decisão judicial de novembro de 2025.
Ela espera acessar documentos de acordos econômicos firmados pela CSN com bancos dos Estados Unidos em um período de alto endividamento do país. Além disso, os arquivos da CSN podem ajudar a elucidar episódios como a demissão de 77 trabalhadores após o golpe, monitorados por ‘atividades subversivas’ e o depoimento de um dos trabalhadores sobre o prometer abonar faltas no comício de João Goulart em 1964.
A CSN foi responsável pela criação do município de Volta Redonda, que surgiu como um projeto de desenvolvimento nacional de Getúlio Vargas. A chegada da Companhia atraiu trabalhadores operários, levando à emancipação do distrito em 1954. A importância da CSN para o desenvolvimento nacional é retomada na década de 1970, com a inclusão da empresa no Primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) de 1971, que exigia estabilidade política para a fase de expansão da siderúrgica.
O Ato Institucional nº 3 foi aplicado na cidade em janeiro de 1973, com a cassação da autonomia pelas eleições diretas e a intervenção na administração pública municipal até 1985. O Serviço Nacional de Informações (SNI) operou na Usina Presidente Vargas a partir de 1977, em conjunto com o Departamento de Segurança da Usina (DSU), que atuavam em estreita proximidade com o braço armado do Estado na repressão às mobilizações e greves dos trabalhadores.
Autor(a):
Com uma carreira que começou como stylist, Sofia Martins traz uma perspectiva única para a cobertura de moda. Seus textos combinam análise de tendências, dicas práticas e reflexões sobre a relação entre estilo e sociedade contemporânea.
